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ENTENDENDO OS JOGOS     

O principal objetivo desta coluna é proporcionar ao leitor, um "tour" por diversos pontos de vista e teorias ligadas aos Jogos Cooperativos e à Pedagogia da Cooperação.

Aqui você encontra o referencial teórico da Pedagogia da Cooperação e dos Jogos Cooperativos. Reproduzimos abaixo a Seção "Entendendo os Jogos" da Revista Jogos Cooperativos, escrita por Mônica Teixeira.

 
Edição 1 - ano I Afinal de onde vem estes Jogos?
Edição 2 - ano I Tipos e Categorias de Jogos I
Edição 4 - ano I Tipos e categorias de Jogos II
Edição 5 - ano I Extraindo o melhor do Jogo!
Edição 6 - ano I Vivenciando os Jogos Cooperativos como uma prática re-educativa
Edição 7 - ano I Jogos Cooperativos e Educação
Edição 8 - ano I Pré...conceitos sobre Jogos Cooperativos
Edição 9/10 - ano I A Cooperação permeando as Cinco Disciplinas nas Organizações
Edição 11/12 - ano I O Jogos dos Autógrafos
Edição 11/12 - ano I Se você não se sente Carpa, Tubarão ou Golgfinho...
talvez você esteja vivendo o Salmão!
Edição 01 - ano II Os Jogos Cooperativos e as Inteligências Múltiplas
Edição 02 - ano II Os Jogos Cooperativos e a Construção de Valores Positivos para nossa Sociedade
Edição 03 - ano II Da Rivalidade-Competitiva ao Humanismo Altruísta
Edição 04 - ano II O Sabor da Vitória
Edição 05 - ano II O que é jogo?
Edição 06 - ano II A Importância do jogo na Aprendizagem
Edição 01 - ano III Princípios Básicos da Consciência Grupal
Edição 02 - ano III O que faz a Cooperação?

 

 

 

 

 

 

                   

Afinal de onde vem estes Jogos?
por Mônica Teixeira
extraído da seção "Entendendo os Jogos" da edição 1 do ano I da Revista Jogos Cooperativos.

Nesse mundo globalizado, super acelerado repleto de invenções e re-invenções, muitas vezes as pessoas encontram-se tão envolvidas neste contexto que vão vivendo de forma automática, reproduzindo alguns padrões sem saber porque; ou melhor sem refletir: Para que?

Os Jogos Cooperativos surgiram, da reflexão do quanto a cultura ocidental principalmente, valoriza excessivamente o individualismo e a competição.

Na verdade, os Jogos Cooperativos, não são novidade, segundo Terry Orlick "começaram a milhares de anos atrás, quando membros das comunidades tribais se uniram para celebrar a vida". Segundo Fábio Brotto, "alguns povos ancestrais, como os Inut(Alasca), Aborígenes(Austrália), Tasaday(África), Arapesh(nova Guiné), os índios norte americanos, brasileiros, entre outros, ainda praticam a vida cooperativamente através da dança, do jogo e outros rituais. Portanto, os Jogos Cooperativos, sempre existiram consciente ou inconscientemente." Sua sistemização, ocorreu a partir de vivências e experiências, na década de 50 nos Estados Unidos, através do trabalho pioneiro de Ted Lentz. Desde então, estudos e programas expandiram-se para muitos países principalmente Canadá, Venezuela, Escócia e Austrália. Hoje, sabe-se de muitos outros que desenvolvem trabalhos com os Jogos Cooperativos de forma profunda e cada vez mais ampla.

Um dos percursores dos Jogos Cooperativos é Terry Orlick, da Universidade de Ottawa no Canadá, que em 78 publicou o livro "Winning Throught Cooperation" ( Editado em português como "Vencendo a Competição) obra reconhecida mundialmente, como uma das principais fontes de inspiração e compreensão dos Jogos Cooperativos.

Segundo Terry Orlick, "a diferença principal entre Jogos Cooperativos e competitivos é que nos Jogos Cooperativos todo mundo coopera e todos ganham, pois tais jogos eliminam o medo e o sentimento de fracasso. Eles também reforçam a confiança em si mesmo, como uma pessoa digna e de valor."

A partir de 1980, iniciaram-se os primeiros passos para integrar os Jogos Cooperativos no Brasil, onde podemos destacar Fábio Otuzi Brotto, como seu principal representante. (ver entrevista pg 7)

Inicialmente, esses jogos tiveram maior repercussão dentro de programas de Graduação e Pós graduação em Educação Física, atualmente, experimenta-se essa proposta em diversas áreas; como no esporte em geral, em Pedagogia, Administração de Empresas, Psicologia, Filosofia, Movimentos Comunitários, ONGS, Saúde, Desenvolvimento do Potencial Humano e tantas outras, sendo desenvolvidos com pessoas e grupos muito diversificados e de todas as idades. Em 2000 iniciou-se no Brasil na cidade de Santos –SP, o curso de Pós Graduação em Jogos Cooperativos o qual hoje está em sua segunda turma.

Apresentamos no quadro abaixo uma comparação, entre o Jogo competitivo e o Cooperativo, com a intenção de ampliar a percepção e proporcionar uma reflexão sobre essas duas formas não só de jogar mas de viver e com-viver; sem opor uma à outra vamos observando a diferença entre essas duas filosofias.

Em nossa próxima edição abordaremos "tipos e categorias de Jogos Cooperativos".

Até lá e bons Jogos!

JOGO COMPETITIVO  JOGO COOPERATIVO
Divertido para alguns Divertido para todos
Alguns sentem-se perdedores Todos sentem-se ganhadores
Alguns são excluídos por falta de habilidade Todos envolvem-se de acordo com as habilidades
Estimula a desconfiança e o egoísmo Estimula o compartilhar e confiar
Cria barreiras entre as pessoas Cria pontes entre as pessoas
Os perdedores saem e observam Os jogadores ficam juntos e desenvolvem suas capacidades
Estimula o individualismo e o desejo que o outro sofra Ensina a ter senso de unidade e solidariedade
Reforçam sentimentos de depreciação, rejeição, incapacidade, inferioridade, etc. Desenvolvem e reforçam os conceitos de nível AUTO (auto-estima, auto-aceitação, etc.)
Fortalece o desejo de desistir frente às dificuldades Fortalece a perseverar frente às dificuldades
Poucos são bem sucedidos Todos encontram um caminho para crescer e se desenvolver

                                                                                                                        Baseado em Orlick 1978 e Brotto 1997

Para saber mais:
* Vencendo a competição - Terry Orlick - Círculo do livro - 1989
* Jogos Cooperativos - Se o Importante é Competir, o Fundamental é Cooperar - Fábio Otuzi Brotto -  Projeto Cooperação - 1999 - 2ª edição
* Jogos Cooperativos - Teoria e Prática - Guillermo Brown - Ed. Sinodal

 

                    

Tipos e Categorias de Jogos I
por Mônica Teixeira
extraído da seção "Entendendo os Jogos" da edição 2 do ano I da Revista Jogos Cooperativos.

Algumas pessoas mostram-se um tanto confusas quando falamos sobre os Jogos Cooperativos, elas não conseguem entender como pode haver um jogo onde não há vencedor e que mesmo assim seja motivante.

Segundo Orlick "o principal objetivo do Jogo Cooperativo é criar oportunidades para o aprendizado cooperativo e a interação cooperativa prazeirosa."

Em seu livro, ‘Vencendo a Competição’ - Orlick, classifica o Jogo Cooperativo em categorias, onde pratica-se a cooperação em todas elas, porém em diferentes graus. Dentro dessa ótica teríamos: O Jogo Cooperativo sem perdedores, Jogos de resultado Coletivo, Jogo de inversão, Jogos Semicooperativos.

Mas como funcionam essas categorias dos jogos?

Vamos ter aqui uma pincelada sobre cada uma delas.

Jogos Cooperativos sem perdedores

Nesses jogos normalmente não se tem perdedores, todas as pessoas jogam juntas para superar um desafio comum.

Jogos Cooperativos de Resultado Coletivo

São formadas duas ou mais equipes que incorporam o conceito de trabalho coletivo por um objetivo ou resultado comum à todos, sem que haja competição entre os times que necessitam de alto grau de cooperação entre si, assim como, cooperar coletivamente com os outros times para alcançar a meta.

Jogo de Inversão

Esses jogos quebram o padrão de times fixos e conseqüentemente mexem com a questão: Quem venceu? Trazem o prazer pelo jogo e não pela vitória.

Existem vários tipos de inversão o dependendo do tipo de jogo e das regras. Por exemplo:

Rodízio: Os jogadores trocam de times em determinados momentos, no final do lance, do saque ou arremesso, por exemplo.

Inversão do "Goleador": Quem faz ponto muda de time.

Inversão do placar: Os pontos são marcados para o outro time.

Inversão Total: Tanto quem faz ponto quanto os pontos passam para o outro time.

Jogos Semicooperativos

Esses jogos favorecem o aumento da cooperação no grupo e oferecem as mesmas oportunidades de jogar para todas as pessoas do time. Os times continuam jogando um contra o outro mas a importância do resultado é diminuída, a ênfase passa a ser o envolvimento ativo no jogo e a diversão.

Todos jogam: Com times pequenos, procura-se fazer com que todos participem e joguem o mesmo tempo.

Todos tocam/todos passam: Antes de tentar o ponto a bola precisa passar por todos os jogadores do time.

Todos marcam ponto: Para vencer o jogo cada jogador do time precisa ter marcado ponto pelo menos uma vez.

Passe misto: jogado com homens e mulheres onde a bola precisa passar alternadamente por homens e mulheres.

Resultado misto: Jogo com times mistos onde os pontos são marcados alternadamente por homens e mulheres.

Todas as posições:Todos os jogadores passam por todas as posições do jogo.

Orlick, relata que os Jogos Cooperativos sem perdedores, os de Resultado Coletivo e os de Inversão são prontamente aceitos pela maioria dos grupos etários, enquanto os jogos de resultado coletivo não o são, especialmente em seus estágios iniciais de introdução. Por isso um importante ponto a se ter em mente ao se introduzir quaisquer atividades cooperativas é adaptar a tarefa para que apresente um desafio apropriado ao grupo e as pessoas.

Bom jogo,

e até nosso próximo encontro!

Para saber mais:
* Vencendo a competição - Terry Orlick - Círculo do livro - 1989
* Jogos Cooperativos - Se o Importante é Competir, o Fundamental é Cooperar - Fábio Otuzi Brotto - Projeto Cooperação - 1999 - 2ª edição
* Jogos Cooperativos - Teoria e Prática - Guillermo Brown - Ed. Sinodal

 

                    

Tipos e Categorias de Jogos II
por Mônica Teixeira
extraído da seção "Entendendo os Jogos" da edição 3 do ano I da Revista Jogos Cooperativos.

Na edição número 2 tratamos dos Tipos e Categorias de Jogos na concepção de Terry Orlick. Nesta edição abordaremos a visão de David Earl Plats1 sobre o tema, a partir de material sistematizado por Magda Villa e Paula Falcão, Consultoras Organizacionais e Focalizadoras do curso de Transformação de Focalizadores no II Festival de Jogos Cooperativos, que inclusive fornecem dicas preciosas para o focalizador, em cada uma das categorias.

David Earl Plats, classifica os Jogos Cooperativos quanto a sua finalidade como instrumento de aprendizagem, integração e visão sistêmica. Sendo assim teríamos os Jogos de Quebra-gelo e Integração, os Jogos de Toque e Confiança, os Jogos de Criatividade, Sintonia e Meditação e os Jogos de Fechamento. Vamos à eles:

Jogos de Quebra-gelo e Integração: São jogos de abertura, nomes, ação, folia, musicais e com dança. São jogos curtos e com altas doses de ação e gasto de energia. Servem para unir o grupo desde o início da sessão, ajudando os participantes a memorizar o nome de cada um, começar um contato e se descontraírem. Os jogadores se soltam, aquecem, descarregam as tensões físicas e superam reservas pessoais. Devem ser usados nas primeiras fases de desenvolvimento do grupo, no início de cada reunião, após intervalos e todas as vezes que o focalizador sentir que a energia e motivação da equipe estão diminuindo.

Dicas para o focalizador:

*Torne pessoal, mantenha pessoal, seja pessoal.

*Crie um espaço seguro e convide as pessoas para ele.

*Modele – mostre o que você espera da equipe.

*Quando trabalhar com co-focalizador, combine antes quem faz o que – divida as tarefas igualmente.

*Respeite a estrutura das pessoas.

*Evite negociar o que não for negociável.

*Seja mais generalista do que detalhista.

*Seja flexível e mostre aos participantes que existe a possibilidade de mudança.

*Mostre que percebeu os distúrbios.

Jogos de Toque e Confiança: Depois que o gelo foi quebrado, o objetivo do treinamento ou vivência pode começar a ser gradualmente trabalhado. Estes jogos ajudam os participantes a observar como lidam com a confiança em suas vidas. Conforme as pessoas forem se abrindo podemos passar aos exercícios de toque. Os jogos de toque e confiança devem ser utilizados com bastante cuidado, o focalizador deve estar atento ao momento do grupo e às reações de cada participante, assegurando-se de que o momento é este, pois eles podem disparar processos psicológicos internos.

Dicas para o focalizador:

*Seja sensível aos seus próprios processos psicológicos.

*Segure o foco sutilmente – seja direto e facilite.

*Seja sensível a processos psicológicos inconscientes tanto seus quanto dos participantes.

*Encoraje e dê suporte a responsabilidade interna do grupo – faça com que eles sejam menos dependentes dos focalizadores.

*Dê mais de si mesmo.

*Esteja preparado para flexibilizar seus planos e para mudanças espontâneas.

*Evite reagir ao grupo – nesta fase você pode estar sendo
testado.

*Mantenha o foco no assunto do trabalho.

*Evite guiar os participantes e dar soluções prontas.

Jogos de Criatividade, Sintonia e Meditação: São jogos que estimulam a expressão da imaginação, intuição e criatividade. Nestes jogos os participantes podem se autoperceber e mostrar abertamente aos outros o que descobriram acerca de si mesmos e do grupo. Os participantes também fazem contato com seu próprio interior e com o grupo, percebendo o "maior" em todos os níveis. Neste momento o grupo já está completamente integrado, traballhando junto e com plenas condições de aprofundar e introjetar o que foi visto até agora.

Dicas para o focalizador:

*Encoraje os participantes a serem positivos e procurarem soluções.

*Dê ferramentas que eles possam usar e levar para casa.

*Reforce o suporte do grupo.

*Trabalhe com perdão, amor e transpessoalidade.

*Evite dar falsas esperanças.

*Mantenha o foco original, evitando começar a trabalhar um novo assunto agora.

Jogos de Fechamento: Estes jogos servem para dar às pessoas a chance de se posicionarem em relação ao grupo e a si mesmas, transferindo o que fizeram no treinamento ou vivência para o seu dia-a-dia.

Dicas para o focalizador:

*Assegure-se de que o assunto está realmente fechado e que os participantes têm consciência de que o treinamento ou a vivência terminou.

*Evite continuar com assuntos anteriores.

*Ponha os pés do grupo no chão, tenha certeza de que eles estão preparados para ir embora.

*Termine sempre com uma nota positiva.

*Se o treinamento ou vivência disparou algo em um dos participantes que ainda não pode ser trabalhado ou concluído, feche com os outros participantes e a seguir trabalhe com o remanescente até encerrar o assunto.

Para saber mais:

1Autodescoberta Divertida - Uma abordagem da Fundação Findhorn para desenvolver auto confiança nos grupos - David Earl Paltts, Ph.D. - Editora Triom – 1997
Livro com 70 jogos divididos nas categorias apresentadas.

 

                    

Extraindo o melhor do Jogo!
por Mônica Teixeira
extraído da seção "Entendendo os Jogos" da edição 4 do ano I da Revista Jogos Cooperativos.

Nossos leitores, tem participado ativamente com e-mails e cartas. Um tema que nos inspirou foi: Como ir além do jogo, passando

Em primeiro lugar, é preciso saber qual o objetivo a ser alcançado com aquele jogo (Lazer? Quebra-gelo? Integração? Sintonia? Estabelecer confiança? Demonstrar Conceitos?...) para que vou usar esse jogo?

É possível aplicar um jogo pelo simples prazer de jogar, reforçando a auto-estima, o compartilhar, o desenvolvimento de competências, a união, a confiança, etc.

Sabemos que o jogo traz em si um espaço para a aprendizagem podendo ter seu efeito potencializado, proporcionando aos "jogadores"algo mais ! Partindo de uma experiência concreta, que gera uma aprendizagem ativa, podemos ilustrar pontos de um curso, aula, treinamento, oficina, palestra, etc... Já disse Paulo Freire: "O homem não aprende apenas com sua inteligência, mas com seu corpo e suas vísceras, sua sensibilidade e imaginação."

Portanto, num processo de aprendizagem o ideal é vivenciar para depois compreender, pois, jogando, estamos simulando diversas situações, e desta forma podemos gerar o famoso "insight" ou como dizemos aqui no Brasil - "cair a ficha".

Quando o participante se envolve no Jogo, ele o analisa criticamente e extrai algum tipo de "insight", aplicando seus resultados na vida prática. Podemos dizer, neste caso, que ocorreu uma "Aprendizagem Vivencial".

Carl Rogers (1972) identifica a Aprendizagem Vivencial como um tipo de aprendizagem que tem como especificidade ser "plena de sentido" e apresenta suas características:

"Envolvimento pessoal - a pessoa inclui-se no evento da aprendizagem tanto no aspecto afetivo quanto cognitivo;

É auto-iniciada - Mesmo com estímulos externos, o senso de descoberta, de captar, de compreender, vem de dentro;

É penetrante - por suscitar modificação no comportamento, nas atitudes;

É avaliada pelo participante que sabe se a aprendizagem está indo ao encontro de suas necessidades;

É verificada pelo elemento de significação que traz ao participante. Significar é a sua essência."

Este processo de transformar a experiência em ação, normalmente não ocorre sozinho, as pessoas necessitam de um tempo de processamento, para tirar conclusões e fazer associações com sua vida. Neste momento, o Focalizador tem papel fundamental, pois é através de sua mediação que o participante pode ir mais fundo em sua reflexão.

Portanto para que ocorra aprendizagem é fundamental cuidar do processamento do jogo. Moscovici(1995) propõe neste momento a utilização do Ciclo de Aprendizagem Vivencial, que busca a participação ativa do grupo e a vivência plena no processo.

A autora descreve esse ciclo como: a experiência concreta por meio de uma atividade; a análise dessa experiência, através do compartilhamento de observações, sentimentos e reações; a busca da conceituação, pelo entendimento das semelhanças e diferenças observadas no grupo; a aplicação dessas descobertas na vida real.
Esse ciclo, aplicado ao Jogo, marca as seguintes fases:

1a Vivência - a atividade por meio da experiência concreta: o ato de jogar e se deparar com algo que leve os participantes ao novo;

2a Relato - a análise dessa experiência: através do diálogo e da reflexão dentro do grupo como um todo ou em duplas, trios, etc. Pode ser aberto ou estimulado por questões levantadas pelo focalizador. Fique atento para que todos que desejem, tenham oportunidade de falar. Cuidado com participantes que "falam demais" tomando todo o tempo do grupo;

3a Processamento - a busca da conceituação: associada à fase anterior por meio do entendimento das semelhanças e diferenças e associação da vivencia com padrões de comportamento no grupo e a sistematização da experiência vivida. Cuidado com respostas e/ou colocaçãoes prontas, fechadas e com a indução. Vale lembrar, que quem participa do jogo, tem sua bagagem, assim como, valores e crenças que nem sempre são os do Focalizador ou de outro participante e que devem ser respeitadas.

4a Generalização - associar a experiência com o dia-a-dia: fazer um breve paralelo, com a realidade, mantendo o foco no tema e no momento do grupo.O Focalizador está exercendo o papel de mediador, para proporcionar uma reflexão onde cada um processe a vivência a partir de suas experiências anteriores.

5a Aplicação - a proposta de aplicação dessas descobertas na vida real: ocorre uma síntese das reflexões e a proposta das aplicações dessas reflexões ao seu dia-a-dia.

Segundo Maria Rita M. Gramigna (1995), quando as pessoas vivenciam um jogo em todas as fases propostas, elas têm melhor chance de alcançar a aprendizagem por trabalharem, de forma harmônica, os dois hemisférios cerebrais.

Estimulamos o acionamento do hemisfério direito nas fases da vivência e do relato de sentimentos e o esquerdo nos momentos de avaliação, análise e analogias.

Ao fechar o Ciclo de Aprendizagem Vivencial, o comportamento final não somente estará pautado no racional, mas também no emocional, buscando assim, resgatar o ser humano integral.

Para saber mais:
*Brown, Guillermo. Jogos Cooperativos - Teoria e Prática -

 

                    

Vivenciando os Jogos Cooperativos como uma prática re-educativa
por Mônica Teixeira
extraído da seção "Entendendo os Jogos" da edição 5 do ano I da Revista Jogos Cooperativos.

Quando comecei a trabalhar com Jogos Cooperativos, eles representavam, ferramentas interessantes que vinham compor meu trabalho como consultora e facilitadora de grupos, entrando como co-adjuvantes, no processo de aprendizagem. A medida em que trabalhava com esses jogos, percebia o que Guillermo Brown quer dizer com a frase: " esses jogos são muito mais que jogos!"

E assim, fui crescendo e me abrindo mais enquanto pessoa, percebendo que minhas crenças e valores mudavam ao mesmo tempo em que auxiliava pessoas a mudar paradigmas em meus treinamentos. É como diz Neyde Marques, "todos somos mestres aprendizes..." quem trabalha com grupos sabe o quanto aprendemos com eles. E no que se refere aos Jogos Cooperativos, eles realmente transformam. Segundo Fábio Brotto: "Podemos vivenciar os Jogos Cooperativos como uma prática re-educativa, capaz de transformar nosso Condicionamento Competitivo em Alternativas Cooperativas para realizar desafios, solucionar problemas e harmonizar os conflitos."

Nesse caminho, notei que quanto mais me envolvia com a Filosofia da Cooperação, melhor focalizava um jogo e consequentemente os resultados também melhoravam. Fábio Brotto frisa um aspecto importante em entrevista concedida em nossa primeira edição:
"... o sucesso de um treinamento está atrelado ao quanto o focalizador está envolvido com a proposta dos Jogos Cooperativos..."

Se o Jogo Cooperativo está sendo utilizado como ferramenta de transformação e quebra de paradigmas é importante que quem o focaliza, esteja sim, muito envolvido com esse valor.

Na verdade, as pessoas que vivem e utilizam os Jogos Cooperativos passam a ter uma nova visão de si e do mundo. Segundo Fábio Brotto, os Jogos Cooperativos propõe um exercício de ampliação da visão sobre a realidade da vida refletida no jogo. Percebendo os diferentes estilos do jogo-vida é possível escolher com consciência o estilo mais adequado para cada momento. Nós jogamos de acordo com nosso jeito de ver-e-viver cada situação.

O ser humano age de acordo com suas crenças e valores. Ele vai responder ao meio que o cerca baseado em seus programas e condicionamentos internos. Segundo Brotto, teriamos 3 formas de ver (perceber) as situações da vida e portanto 3 formas de viver (agir) em nossa vida.

Confira na tabela abaixo, três Jeitos de ver-e-viver
o jogo da vida


Brotto, 2001 - Jogos Cooperativos - O Jogo e o Esporte como um Exercício de Convivência - pg.61

Portanto, um Jogo Cooperativo pode proporcionar muito mais do que imaginamos na vida de alguém. Quem o vivencia pode ter novas atitudes, trilhar novos caminhos e até conquistar uma nova vida, assim foi comigo.

 

                   

Jogos Cooperativos e Educação
por Mônica Teixeira
extraído da seção "Entendendo os Jogos" da edição 6 do ano I  da Revista Jogos Cooperativos.

A tecnologia avançada, o individualismo e a riqueza material tornaram-se mais importantes para o homem moderno que valores como a união, o amor, a cooperação, a bondade, a paz, a responsabilidade, a organização e a riqueza espiritual. Nossa sociedade é baseada no consumo e orientada para a produtividade, portanto dentro deste contexto, muitas vezes o único caminho que vemos é o da competição. Se acreditamos que a competição é o único e natural caminho, entramos em uma grande armadilha, pois se é isso que acreditamos é o que construiremos.

Muitos dizem que competir faz parte da natureza do homem. Na verdade, o homem tem uma natureza neutra, portanto não é competitivo ou cooperativo em sua essência! Essa foi uma das conclusões da antropóloga Margaret Mead. Em suas pesquisas Margaret concluiu que o cooperativismo em uma sociedade, não depende do ambiente físico, do desenvolvimento tecnológico ou do suprimento real dos bens desejados. É a estrutura social que determina se os membros dessa sociedade irão cooperar ou competir entre si. Daí a importância e extrema urgência em levar às nossas crianças e jovens, valores positivos para uma transformação efetiva de nossa sociedade.

Atualmente, a escola é o local onde se aprende cada vez mais sobre o universo físico, e muito pouco sobre o mundo interior e subjetivo. O relatório eleborado pela Comissão Internacional para Educação, mais comumente conhecido como Relatório Delors, intitulado "A Educação contém um tesouro", destaca a dificuldade que muitos professores enfrentam em continuar sendo também educadores, em face da grande quantidade de conhecimentos que devem transmitir aos alunos. Freqüentemente surgem situações em que a escola, tendo que ensinar cada vez mais e mais, acaba por educar menos e menos. Lida-se muito com informação em detrimento da formação do indivíduo. Os jovens envoltos em trocas contínuas, tanto de seu corpo físico quanto da quantidade de informações e mudanças ultrasônicas do mundo moderno, terminam absorvidos pelo fluxo de atividades e responsabilidades dentro e fora de sala de aula, principalmente nas camadas mais pobres, onde, inicia-se a chamada luta pela sobrevivência muito cedo, e com isso a formação de valores fica prejudicada. A escola, muitas vezes sem perceber, tem reforçado demasiadamente valores como: ser o melhor, colocar o foco no resultado e não no processo e na qualidade, objetivar a derrota do oponente ao invés da melhora da performance, reforçando assim, atitudes e posturas competitivas, as quais poderão reproduzir na vida adulta, através de rivalidade, exploração de seus semelhantes, pouca ou nenhuma solidariedade, exclusão, violência, destruição ambiental, e quando educarem seus filhos são os valores que aprenderam que irão transmitir.

Terry Orlick*, coloca: "Dar uma contribuição ou fazer alguma coisa bem, simplesmente não exige a derrota ou a depreciação de outra pessoa. Pode-se ser extremamente competente, tanto física como psicologicamente, sem jamais se prejudicar ou conquistar o outro. Muitas pessoas ainda acreditam que para "vencer" ou "ter sucesso", é preciso ser um feroz competidor e quebrar as regras. Muitas pessoas parecem achar que para ensinar as crianças a viver e prosperar na sociedade é necessário prepará-las para serem competitivas e tirar vantagens dos outros, antes que os outros o façam."

É comum ouvir-se defender a competição como um elemento importante na educação das crianças, sob o pretexto de que assim ficariam melhor preparadas para viverem num mundo competitivo como o nosso. Esse mito foi derrubado pela pesquisa sobre o aprendizado cooperativo, pois na verdade a competição diminui a auto-estima e aumenta o medo de falhar, reduzindo a expressão de capacidades e o desenvolvimento da criança. Ela promove a comparação entre as pessoas e acaba por favorecer a exclusão baseada em poucos critérios. Um ambiente competitivo aumenta a tensão e a frustração e pode desencadear comportamentos agressivos. Com relação ao desempenho acadêmico, uma série de estudos demonstram que crianças de várias classes sócio-econômicas tem maior sucesso em áreas como matemática, desenvolvimento vocacional e leitura quando estão trabalhando junto com seus colegas sob uma estrutura de objetivos cooperativos em vez de individualistas ou competitivos.

"A Cooperação é a força unificadora mais positiva que agrupa uma variedade de indivíduos com interesses separados numa sociedade coletiva." Haratmann

A UNESCO coloca alguns Valores essenciais para a paz e uma convivência ecológica entre as pessoas: Respeitar a vida, Rejeitar a violência, Ser generoso, Escutar para compreender, Preservar o planeta, Redescobrir a solidariedade. Esses e outros valores como: união, amor, cooperação, bondade, paz, responsabilidade, organização, inclusão, ética, são trabalhados através dos jogos cooperativos e da Pedagogia da Cooperação.

Muitos dos desequilíbrios presentes na nossa sociedade decorrem de uma percepção de separação e não inter-dependência face ao exterior. Através do sistema educativo, os jovens interiorizam a separação entre o mundo humano e o mundo natural. O afastamento face ao que nos rodeia estende-se à relação com o outro, em virtude da extrema valorização do individualismo, que conduz ao exacerbar da competição para alcançar o sucesso no mercado de trabalho. Este caminho conduziu-nos à beira de um abismo. O objetivo de cada um obter o máximo lucro/bens materiais a curto prazo, está a levar a um desequilíbrio ecológico de proporções planetárias. Apesar de tanto valorizarmos a razão, continuamos a trilhar um percurso de irracionalidade, comprometendo a nossa permanência no planeta.

Os Jogos Cooperativos, ao promoverem um tipo de relação com o outro baseado na capacidade de cooperar, poderão constituir um valioso instrumento na formação do cidadão. Em lugar de um modelo de atuação em que o indivíduo está em competição com o mundo, ajuda a desenvolver uma relação com o exterior baseada no respeito e no agir com o

                   

Pré...conceitos sobre Jogos Cooperativos
por Mônica Teixeira
extraído da seção "Entendendo os Jogos" da edição 7 do ano I  da Revista Jogos Cooperativos.

Existem algumas idéias pré...concebidas que envolvem os Jogos Cooperativos. Conversando com pessoas que pouco conhecem dos Jogos Cooperativos podemos destacar várias idéias com pouca ou nenhuma correspondência com a realidade e que envolvem os Jogos Cooperativos, criando barreiras para que se esteja aberto a conhecer um pouco mais sobre eles e perceber sua profundidade. Por essa razão, os chamamos aqui de PRÉ...CONCEITOS, ou seja, conceitos ou opiniões concebidas préviamente sem embasamento, levando em conta apenas uma visão parcial ou superficial do tema.Vamos falar sobre alguns dos mais comuns que normalmente encontramos no dia a dia...

Sem competição fica sem graça!

Tema muito comum e fácilmente derrubado com a experimentação de alguns jogos, pois os Jogos Cooperativos são desafiantes, envolventes, energizantes e quem os joga pode perceber bem. Na verdade, percebemos que o real grande desafio, é o da convivência e da tolerância, tornando o jogo possível para todos.

Só serve para criança.

Esse é outro pré...conceito, pois até Guillermo Brown, relatou em sua entrevista (edição 7, pg. 7) que por serem jogos, pensou só funcionarem com crianças e depois percebeu e comprovou na prática que os mesmos jogos poderiam servir para qualquer idade e qualquer público. Claro que existem alguns jogos que são mais voltados para determinada faixa etária, mas em sua maioria podem ser usados com qualquer idade. O que muda é a abordagem feita antes e depois do jogo, e por isso o focalizador precisa ser uma pessoa experiente com aquele tipo de público para poder extrair do jogo o que ele tem de melhor.

Adulto não gosta de brincar!

Esse pré...conceito é muito usado por organizações. Geralmente percebe-se uma grande preocupação do contratante com o envolvimento do grupo, questionando quanto aos resultados deste tipo de trabalho, principalmente quando são em sua maioria homens... mas na verdade o que se nota, nestes casos, é a dificuldade em convencê-los a parar de jogar, tamanha a carência que estas pessoas sentem em manifestar sua criança interior, abafada pelo normalmente sisudo e pesado ambiente organizacional.

O brincar faz parte do ser humano e já está mais que comprovado que o riso e a diversão podem melhorar seu QE (Quociente Emocional). Moreno, na teoria do Psicodrama, ressalta a extrema importância da espontaneidade, que vamos perdendo a medida que crescemos. Para podermos estar flexíveis e criativos, qualidades imprescindíveis hoje nas organizações, precisamos resgatar a espontaneidade perdida, a capacidade de rir e se divertir. Maria Rita Gramigna, aborda com propriedade esse assunto na edição 6 pgs 7, 8 e 9. Ao jogarmos, estamos mais inteiros e podemos nos expressar livremente como verdadeiramente somos. Como diz Maria Rita: "Quando adotamos atitudes infantis conseguimos ir à nossa essência e transcender o mito realístico do adulto." Vivenciando situações no jogo podemos entrar em contato com sensações, impressões e obter insights interessantes que auxiliam nossa postura e conduta no dia a dia e no trabalho.

Só é aplicável em aula de Educação Física

Realmente os Jogos Cooperativos encontraram na Educação Física, solo fértil para seu desenvolvimento, por ser a disciplina que trabalha o corpo e o lúdico. Atualmente eles são utilizados tanto em aulas de português e matemática como em treinamentos empresariais, trabalhos comunitários, transformação de grupos, etc...

Só serve para o pessoal que trabalha com recreação e lazer

Nessa área vemos uma difusão muito maior dos Jogos Cooperativos do que na Educação Física escolar, por exemplo. Talvez num primeiro momento, quando analisado superficialmente, os Jogos Cooperativos sejam vistos como apenas divertidos e interessante e como não tem um único vencedor, entendidos como brincadeira sem grande profundidade, mas isto é falso. Quando jogamos cooperativamente podemos internalizar valores essenciais ao ser humano e ao trabalho em equipe, aprender a viver melhor em sociedade agregando qualidade ao processo de convivência, e tantos outros benefícios.

Só funciona com grandes grupos

Funciona com todo tipo de grupo. Muitos jogos são para grupos de 15 a 40 pessoas e temos jogos para 100, 200 ou mais pessoas, assim como, podemos usar outros tipos de jogos como os de tabuleiro por exemplo que trabalham com 2, 3 ou 4 pessoas.

Procura acabar com qualquer tipo de competição

Esse é muito forte principalmente entre os profissionais de Ed. Física. Recentemente recebemos um feed back de um coordenador que utilizou o texto e a tabela (desta coluna) de nossa primeira edição com seus professores gerando grande polêmica, pois estes sentiram-se agredidos, acreditando que nos Jogos Cooperativos pregamos que competir é feio. Terry Orlick fala sobre a Co-opetição onde se esta empenhado em melhorar a performance e não destruir o adversário. (Na Edição 5 Inês Cozzo Olivares, pg 5,6 - aborda este tema). Existem os Jogos Semicooperativos, os Jogos de Inversão que também lidam com a Cooperação, dentro de um esquema competitivo (ver edição 2 – pg 4). Estes jogos são muito interessantes para equipes de rendimento, Ed. Física escolar, adolescentes, entre outros...

Não serve para treinamento de equipes de competição

Outro pré...conceito! Segundo o Prof. João Batista Freire "Um dos fundamentos mais importantes do jogo de equipe é o passe, que necessita de extrema Cooperação. O time que tem mais Cooperação é o que superará o desempenho do adversário. O maior desafio de treinadores de times coletivos é ensinar a passar. Por isso em todo jogo competitivo vamos encontrar Cooperação. É mais fácil encontrar Cooperação em jogos competitivos do que a competição em Jogos Cooperativos."

 

 

                   

A Cooperação permeando as Cinco disciplinas nas Organizações
por Mônica Teixeira

extraído da seção "Entendendo os Jogos" da edição 8 do ano I  da Revista Jogos Cooperativos.


O mundo está a cada dia mais interligado e os negócios mais complexos e dinâmicos. Uma organização hoje, necessita ter grande capacidade de adaptação à velocidade das mudanças do mundo, e para isso, é necessário que deixem de lado a cultura do controle e da obediência a padrões pré- estabelecidos para cada vez mais voltarem-se a uma dinâmica de aprendizagem e mudança. Peter Senge, Diretor do Centro de Aprendizagem Organizacional do "Massachusetts Institute of Tecnology" – MIT, escreveu o livro "A Quinta Disciplina" no qual apresenta a necessidade das organizações, cada dia mais se transformarem em organizações que aprendem para poderem crescer e sobreviver no mercado.

Senge acredita que cinco disciplinas mostram-se essenciais para a construção da Organização que aprende:

Domínio Pessoal: Através do auto-conhecimento as pessoas aprendem a clarificar e aprofundar seus próprios objetivos, a concentrar esforços e a ver a realidade de forma objetiva.

Modelos Mentais: São idéias profundamente enraizadas, generalizações e mesmo imagens que influenciam o modo como as pessoas vêem o mundo e as suas atitudes.

Visões Partilhadas: Quando um objetivo é percebido como concreto e legítimo, as pessoas aprendem não como uma obrigação, mas por vontade própria, construindo visões partilhadas. Muitos líderes têm objetivos pessoais que nunca chegam a ser partilhados pela organização como um todo. Esta, funciona muito mais devido ao carisma do líder ou às crises que unem a todos temporariamente.

Aprendizagem em Grupo: Em grupos nos quais as habilidades coletivas são maiores do que as individuais se desenvolve a capacidade para a ação coordenada. A aprendizagem em grupo começa com o diálogo; em outras palavras, começa com a capacidade dos membros do grupo para propor suas idéias e participar da elaboração de uma lógica comum.

Pensamento Sistêmico: Constitui um modelo conceitual, composto por conhecimentos e instrumentos, desenvolvidos ao longo dos últimos 50 anos, que visam melhorar o processo de aprendizagem como um todo e apontar as futuras direções para o aperfeiçoamento.

Senge(1990) focou inicialmente o indivíduo, seu processo de autoconhecimento, de clarificação de seus objetivos e processos pessoais. Em seguida, seu foco deslocou-se para o grupo e, finalmente, através do raciocínio sistêmico, para a organização. O pensamento sistêmico constitui a quinta disciplina, integrando as demais, em um conjunto coerente de teoria e prática, o que evita a visão isolada de cada uma delas.

Utilizando a idéia de modelos mentais de Senge, considerando que na atualidade o processo de aprendizagem organizacional mostra-se fundamental para as organizações, as pessoas são estimuladas constantemente a estar desenvolvendo-se e adquirindo novos conhecimentos para melhorar suas competências, o que é ótimo, pois esta é uma necessidade do ser humano. As pessoas porém, tem bloqueios e inibições, e precisam de ajuda nesse desenvolvimento, surgindo o treinamento para auxiliar nesse processo.

Mas como fazer isso de forma ecológica, eficaz e prática?

1. É importante que a aprendizagem seja divertida!

O ser humano nasce motivado a aprender, explorar o mundo e a beneficiar-se disso. Quando crianças, aprendemos jogando e explorando o mundo ao redor, o que é fundamental para um desenvolvimento normal, pois durante os sete primeiros anos de vida a personalidade básica do ser humano é estruturada e se formam a maioria das conexões ou sinapses cerebrais.

Nas organizações ainda hoje, muitas vezes confunde-se um profissional sério e responsável com uma postura sisuda e rígida. Essa postura "sisuda", atrapalha um bom QE (Quociente Emocional) pois as emoções negativas e/ou reprimidas tem o poder de perturbar o pensamento, criando uma "estática neural" e sabotando a capacidade do lobo pré-frontal de manter a memória funcional. Portanto, pessoas perturbadas emocionalmente criam deficiências nas aptidões intelectuais.

Quando o homem ri e se diverte, se liberta dos bloqueios, da seriedade paralisante, da rigidez, liberando a consciência, as emoções, o pensamento e a imaginação, que ficam disponíveis para novas possibilidades.

Hipócrates – considerado pai da Medicina, foi o fundador da teoria dos Humores e era um teórico do riso. A doutrina da virtude curativa do riso aparece em seus tratados.

Segundo Morgana Massotti, psicóloga e pesquisadora da "ciência do riso" e seus efeitos sobre a saúde, "o humor permite ao individuo explorar fatos que por obstáculos pessoais, não poderiam se revelar de forma aberta e consciente, o que permite a liberação da energia investida no problema, que então pode ser utilizada em outros pontos importantes, como por exemplo na busca de soluções. O funcionamento dos processos humorísticos é análogo aos mecanismos presentes nos sonhos, e serve de instrumento importante para lidar com conflitos e manutenção do equilíbrio físico e mental." Quando estamos livres para ver as coisas de forma diferente trabalha-se com mudança de perspectiva da realidade podendo assim transformar essa realidade e aprender com ela. Por tudo isso, os educadores modernos enfatizam mecanismos que desenvolvam e proporcionem estados de harmonia mental, alegria e diversão, promovendo o prazer de aprender utilizando brincadeiras, jogos, dramatizações, simulações, casos, trabalhos de equipe, vivências, artes plásticas e filmes, entre outros instrumentos que enriquecem a aprendizagem tornando-a mais prazerosa, favorecendo o aprendizado e a fixação do conteúdo, assim como a auto-estima dos treinandos.

2. Simulando para aprender

Segundo Winnicott, as brincadeiras, os jogos, a arte e a prática religiosa tendem, por diversos mas aliados métodos, para uma unificação e integração geral da personalidade. As brincadeiras servem de elo entre a relação do individuo com a realidade interior e por outro lado, a relação do individuo com a realidade externa ou compartilhada.

Maria Helena Matarazzo coloca, que existem dois tipos de ensinamentos: os Ensinamentos da Escola e os Ensinamentos da Vida, sendo que estes últimos são os mais importantes porque é onde praticamos e realmente aprendemos.

Nosso cérebro aprende por ensaio, repetição e velocidade, portanto ensaiar e simular faz parte da aprendizagem. Segundo a PNL (Programação Neurolingüistica) para aprender efetivamente algo é preciso ver, ouvir e sentir e com isso mais uma vez a simulação torna-se importante pois o cérebro não distingue o real do virtual.

Quando simulamos temos a oportunidade de vivenciar determinadas experiências obtendo insights que certamente irão auxiliar na aprendizagem e torná-la mais efetiva. Quando simulamos, os bloqueios desaparecem e ficamos mais livres para sermos quem realmente somos atuando como parceiros e não como concorrentes.

3. Levando em conta a bagagem

No passado, o professor era o detentor do saber e o aluno como uma xícara vazia onde o mestre depositaria algumas gotas de sua sapiência. A própria palavra aluno significa sem luz (a = não + luno que vem de lumini = luz).

Hoje sabemos que todos trazem uma bagagem consigo independente de idade, sexo, origem, escolaridade, etc...todos somos mestres-aprendizes. Principalmente quando lidamos com adultos, é essencial que essa bagagem seja respeitada pois é com ela que o grupo ou a organização vai construir sua personalidade e seu conhecimento.

4. Aprender é um ato social

O homem é um ser social. Já disse Jung: "Nenhum homem é uma ilha, fechado em si mesmo, mas sim um continente, uma parcela da terra principal". Precisamos interagir e trocar, por isso, a melhor forma de aprendizagem é a que implica na interação. Aprender é eminentemente um ato de socialização, não é uma postura individualista, mas organizacional. Através da troca de idéias e informações onde as pessoas estão no mesmo nível, elas entram em contato com outros pontos de vista e diferentes percepções do tema, podendo assim crescer e chegar a melhores idéias, assim como procuram entender o ponto de vista de outras pessoas, o que estreita laços e amplia a possibilidade de relações de maior confiança. Esse tipo de aprendizagem oferece aos participantes a oportunidade de ampliar sua visão além dos limites da perspectiva pessoal, canalizando o potencial das mentes envolvidas para que a inteligência do conjunto seja maior que a individual.

5. Os Jogos Cooperativos nas organizações

Os Jogos Cooperativos podem auxiliar no desenvolvimento das 5 disciplinas necessárias para uma organização que aprende e contemplam todo esse contexto importante para melhores resultados em treinamentos comportamentais, pois quando jogamos e superamos desafios em grupo estamos além de aprendermos juntos, exercitando a cooperação e melhorando tanto nosso QI quanto nosso QE. Segundo Piaget "O trabalho em grupo é a forma mais interessante para promover a cooperação, é fator fundamental para a progressão intelectual". Nos Jogos Cooperativos ocorre a união da cooperação e da autonomia, pois o grupo tem consciência das regras e consciência da razão de ser dessas regras e a partir disto vai buscar vencer o desafio comum, superando-se o desafio e não alguém, utilizando todos os recursos existentes no grupo que ajudem nessa tarefa. Com isso, além da aprendizagem em grupo e do exercício da Cooperação, cada membro tem a oportunidade de trabalhar o domínio pessoal, ou seja, a maestria pessoal, encarando seus colegas como aliados e utilizando suas competências da melhor forma possível em busca da excelência e do objetivo comum.

Muitas vezes, manter o compromisso com a equipe e o entusiasmo com os objetivos não é uma tarefa fácil. Nas organizações, muitas pessoas começam empenhadas e vibrantes mas desanimam quando surgem problemas ou frustrações, principalmente quando sentem-se sozinhas e incapazes de desempenhar algo que está sendo exigido sem ajuda e estímulo. Nesses momentos a Cooperação tem papel fundamental no grupo, onde este individuo pode encontrar motivação, e o grupo ajudará esse integrante a superar seus bloqueios e continuar no jogo, pois a inclusão e o sucesso compartilhado fazem parte da filosofia da Cooperação.

Olhar para as coisas de forma diferente também é muito importante nos Jogos Cooperativos, onde desde o princípio os parâmetros são outros, o que possibilita quem joga experimentar novas possibilidades e refletir sobre o que é mais ecológico e interessante em termos de resultados para a equipe, a organização, a sociedade e o meio ambiente. A medida que o grupo caminha para a solução dos desafios, necessita da riqueza da diversidade na equipe para analisar o cenário, questionar, abstrair e encontrar estratégias que solucionem o problema testando as várias hipóteses que surgem da troca entre os participantes.

Nos Jogos Cooperativos pode-se exercitar também o lidar com situações difíceis, através da simulação que proporciona aprendizagem e mudança profunda com risco controlado, de forma divertida e prazerosa na maior parte das vezes.

No CAV (Ciclo de Aprendizagem Vivencial) ou seja, na análise do jogo, vamos trabalhando o raciocínio sistêmico, através das inter-relações que o grupo vai construindo, podendo buscar uma visão global do trabalho e do tema de aprendizagem (teoria) relacionando-o com a prática do jogo e do dia a dia. Esta visão geral possibilita buscar soluções para problemas mais complexos do trabalho e da organização através da mudança de mentalidade. Os Jogos Cooperativos afetam e alteram a forma como a pessoa vê a si mesma e o mundo e com isso pode alterar os resultados organizacionais pois a pessoa passa a aprender e a mudar sua própria realidade visando o bem comum.

Para saber mais:

Senge, P. A Quinta Disciplina: a Arte e a Prática da Organização que aprende. São Paulo: Best Seler, 1998

Senge,P.; Kleiner,A.; Roberts,C.; Ross,R.; Smith,B.;

A Quinta Disciplina - Caderno de Campo: Estratégias e Ferramentas para construir a organização que Aprende. Rio de Janeiro: Qualitymark, 1997.

Massotti, M. Soluções de Palhaços - Transformações na realidade Hospitalar - Ed. Palas Athena.

 

                   

O Jogo dos Autógrafos
por Mônica Teixeira

extraído da seção "Entendendo os Jogos" da edição 9/10 do ano I  da Revista Jogos Cooperativos.

Nesta edição vamos mergulhar em um jogo que já se tornou um clássico quando o assunto é sensibilização para a Cooperação. Vamos falar sobre o Jogo dos Autógrafos.

Quem conhece sabe bem o quanto esse jogo dá, como dizem, "pano pra manga" tanto em sala discutindo com os participantes num CAV após o jogo, quanto com facilitadores sobre como e com qual foco aplicar esse jogo.

Pesquisando acerca de sua orígem soubemos que o Jogo foi adaptado por Fábio Brotto (ver o jogo nesta versão na pg 19) da proposta apresentada por Celso Antunes (ver pg 20) Segundo contato com Celso Antunes, ele nos contou que utiliza esse jogo há mais de 40 anos e que possivelvente o leu em um pequeno livro ou apostila de Silvino Fritizen.


Mas porque o Jogo dos Autógrafos é tão falado?

Encontram-se muitas respostas para essa questão, de acordo com visões diferentes do jogo. Apresentaremos algumas nesta edição que não tem a pretenção de esgotar o assunto mas sim, verificar um pouco mais do que apenas relatar um jogo tão profundo e rico que merece mais destaque do que apenas a seção venha jogar. Desta forma o leitor poderá refletir, experimentar alternativas diferentes e tirar suas próprias conclusões sobre o jogo.

Fábio Brotto em seu livro "Jogos Cooperativos - Se o importante é competir, o fundamental é Cooperar", coloca que no ínicio usava esse jogo para clarear os motivos pelos quais as pessoas escolhem competir no lugar de cooperar e auxiliá-las a descobrir alternativas para uma nova forma de abordar conflitos e realizar metas grupais. Dentro dessa proposta foram identificados de acordo com suas observações após centenas de aplicações, 3 padrões de Percepção-ação". São eles a Omissão, a Cooperação e a Competição (ver tabela na Revista Jogos Cooperativos-Edição 06-pg04), que se manifestaram diante da necessidade de jogar para alcançaruma meta comum ou solucionar um problema. Dessas três visões resultam três formas de estar no mundo, se comportar e se relacionar com as pessoas (Leia artigo na pg 10, com minha visão sobre o tema). Embora tenhamos essas três possibilidades, a primeira resposta que normalmente observa-se nos grupos é o comportamento competitivo, o que torna o resultado alcançado muito inferiror ao resultado possível. Com esse dado, o grupo é levado à reflexão e observação do que efetivamente ajuda e atrapalha na obtenção de melhores resultados e a experimentar novas possibilidades. Nota-se através do comportamento dos grupos que o condicionamento para a competição está presente em nossa sociedade, mas quando refletem e percebem que através da cooperação poderiam ter melhores resultados com mais qualidade e que isso é uma questão de escolha as pesssoas passam a olhar para o mundo de outra forma e sua ação também passa a ser diferente.

Diversos autores relatam sobre a importância de se experimentar algo para se chegar ao conhecimento. Destacamos aqui uma fala de Celso Antunes, onde ele relata sobre a necessidade de trabalhar-se com técnicas de sensibilização; "...os valores essenciais da educação não se prestam a uma vivência quando transmitidos através de discursos; porque o conhecimento e a compreensão da realidade é mais facilmente alcançado pela vivência que pela informação; mas sobretudo porque as técnicas de sensibilização valorizam comportamentos e assunção de responsabilidades sociais, promovem o aprimoramento da identificação do outro como indivíduo, através de seus valores e não pelas eventuais embalagens que o revestem."

E esse é o ponto focal da Pedagogia da Cooperação, que através do Jogo Cooperativo, leva a pessoa a refletir, questionar e escolher o que é melhor para ela naquele momento. Talvez o grupo escolha usar uma só folha, talvez as pessoas optem por continuar cada um com a sua folha e melhorar suas marcas como relata Carmello (pgs 14-15) mas seja lá como for, creio que o principal papel dos Jogos Cooperativos é sensibilizar e criar esse momento de reflexão, proporcionando com isso uma visão de mundo mais consciente, o que leva a comportamentos mais inclusivos e um ser e estar no mundo mais qualitativo.

Leia, experimente... vivencie profundamente esse jogo tão rico e suas várias possibilidades verificando as dimensões que você pode alcançar através dele!

 

 

                   

Se você não se sente Carpa, Tubarão ou Golgfinho...
talvez você esteja vivendo o Salmão!

por Mônica Teixeira

extraído da seção "Entendendo os Jogos" da edição 11/12 do ano I  da Revista Jogos Cooperativos.

As pessoas têm comportamentos diversos, esses comportamentos geram mais comportamentos e o mundo segue seu rumo...

Daí a importância da consciência de nossas atitudes e das atitudes dos outros, a fim de repensarmos e decidirmos o que convém ou não para nós e para nosso mundo.

Cooperação ou Competição, o que está escrito em meu sistema de Crenças?

No Dicionário Aurélio a palavra competição consta como sinônimo de luta, desafio, disputa, rivalidade. E a palavra Cooperação como comum, colaboração, ajuda, auxílio.

Follett, afirma que, ao competirmos, nossas paixões e interesses estão em conflito com paixões e interesses do outro e o "poder-sobre" (se um ganha, o outro perde; se um domina, o outro é dominado; se um se alegra, o outro se entristece; etc.) passa a ser o meio de resolução destes conflitos.

Já, em um processo de cooperação, essa relação muda. As paixões e interesses podem até ser diferentes - e normalmente são - mas os conflitos gerados por elas são construtivos (buscam a integração de diferenças), pois sua base está, como cita Follett, no "poder-com": se um ganha, todos ganham, pois este é o poder legítimo, o poder conjunto que traz enriquecimento e progresso para a alma humana.

Para cooperar é necessário um alto grau de convivência e de doação, assim como uma boa relação consigo mesmo, o que é um desafio para a maior parte das pessoas, sendo mais fácil colocar a necessidade de mudança no outro, e com isso se omitir. Lannes (2001, p.31) coloca que durante toda a vida fomos educados para encontrar alguém em quem colocar a culpa e relata como as crianças aprendem desde muito cedo a se defender encontrando o culpado. "... Não fui eu, não! Com essa frase, nossas crianças aprendem desde pequenas a se defender de possíveis punições dos adultos, quando algo sai errado. Esse comportamento não acontece, ao acaso, mas sim, uma semente plantada em seu modo de vida, que transmite a cultura de nossa sociedade: Ache sempre um culpado quando as coisas saírem erradas. A pergunta chave que dispara o comportamento é: "Quem foi que..."Por vezes tentamos ser mais suaves e dizemos: "Eu não vou bater, pode falar quem foi..."E assim vamos crescendo, até que ingressamos em alguma organização estruturada, seja ela com ou sem fins lucrativos, seja uma fábrica de foguetes, seja uma empresa de gestão do conhecimento e tecnologia, seja uma organização não-governamental de preservação ambiental. Logo nos deparamos com a necessidade de trabalharmos como um time, de maneira afinada. Mas como podemos trabalhar como um time, se nossa primeira preocupação é garantir o nosso lado, sem sermos punidos?..."

Como trabalhar em conjunto sem querer ganhar do outro a todo custo? Como podemos nos desenvolver enquanto equipe quando o foco está em competir?

A competição dificulta as relações, gerando um clima de medo, dependência, rivalidade, desconfiança e estresse; criando barreiras entre as pessoas.

Quando se tem a consciência deste contexto e dos efeitos de ambas as polaridades, Competir ou Cooperar passa a ser uma questão de escolha pessoal. Muitas pessoas desejam de fato cooperar, mas dentro de si tem muitas inibições, barreiras, emoções negativas e terminam voltando ao modelo competitivo.

Nesse contexto percebe-se três pontos mais marcantes:

1. A competição é muito forte em nossa sociedade, sendo reforçada a cada instante como natural e único caminho;

2. Quando a pessoa busca um caminho diferente é estimulada, direta e indiretamente a seguir com a maioria e precisa de uma força muito grande para insistir em um caminho alternativo.

3. O condicionamento para a competição está de tal forma instalado dentro do ser humano que quando ele percebe (se é que percebe), já foi.

A questão do condicionamento está ligada ao nosso sistema de crenças e valores e este sistema rege o comportamento humano.

Verificar quais as crenças que nos norteiam, ou seja, que tipo de programação existe dentro da pessoa é fundamental para qualquer realização e mudanças que se deseje.

Dudley Lynch e Paul Kordis do Brain Technologies Institute, criaram a Metáfora do Golfinho, da Carpa e do Tubarão, que demonstra três padrões básicos de funcionamento no mundo e o porque disto, ou seja, três tipos básicos de crenças que costumam estar presentes nas pessoas e por trás de suas atitudes. Vejamos quais seriam esses padrões através desta metáfora...

 "Existem três tipos de animais: as carpas, os tubarões e os golfinhos. A carpa é dócil, passiva e quando agredida não se afasta nem revida. Ela não luta mesmo quando provocada. Considera-se uma vítima, conformada com seu destino. Alguém tem que se sacrificar, a carpa se sacrifica. Ela se sacrifica porque acredita que há escassez. Nesse caso, para parar de sofrer ela se sacrifica. Carpas são aquelas pessoas que numa negociação sempre cedem, sempre são os que recuam; em crises, se sacrificam por não querer ver outros se sacrificarem. Jogam o perde-ganha, perdem para que o outro possa ganhar. Declaração que a carpa faz para si mesma :  "Sou uma carpa e acredito na escassez. Em virtude dessa crença, não espero jamais fazer ou ter o suficiente. Assim, se não posso escapar do aprendizado e da responsabilidade permanecendo longe deles, eu geralmente me sacrifico."

Nesse mar existe outro tipo de animal: o tubarão.
O tubarão é agressivo por natureza, agride mesmo quando não provocado. Ele também crê que vai faltar. Tem mais, ele acredita que, já que vai faltar, que falte para outro, não para ele! "Eu vou tomar de alguém!" O tubarão passa o tempo todo buscando vítimas para devorar porque ele acredita que podem faltar vítimas. Que vítimas são as preferidas dos tubarões?
Acertou, as carpas.Tanto o tubarão como a carpa, acabam viciados nos seus sistemas. Costumam agir de forma automática e irresistível. Os tubarões jogam o ganha-perde, eles tem que ganhar sempre, não se importando que o outro perca. Declaração que o tubarão faz para si mesmo: "Sou um tubarão e acredito na escassez. Em razão dessa crença, procuro obter o máximo que posso, sem nenhuma consideração pelos outros. Primeiro, tento vencê-los; se não consigo, procuro juntar-me a eles."

O terceiro tipo de animal: o golfinho.
Os golfinhos são dóceis por natureza. Agora, quando atacados revidam e se um grupo de golfinhos encontra uma carpa sendo atacada eles defendem a carpa e atacam os seus agressores. Os "Verdadeiros" golfinhos são algumas das criaturas mais apreciadas das profundezas. Podemos suspeitar que eles sejam muito inteligentes - talvez, à sua própria maneira, mais inteligente do que o Homo Sapiens. Seus cérebros, com certeza, são suficientemente grandes - cerca de 1,5 quilograma, um pouco maiores do que o cérebro humano médio – e o córtex associativo do golfinho, a parte do cérebro especializada no pensamento abstrato e conceitual, é maior do que o nosso. E é um cérebro, como rapidamente irão observar aqueles fervorosos  entusiastas dedicados a fortalecer os vínculos entre a nossa espécie e a deles, que tem sido tão grande quanto o nosso, ou maior do que o nosso, durante pelo menos 30 milhões de anos. O comportamento dos golfinhos em volta dos tubarões é legendário e, provavelmente, eles fizeram por merecer essa fama.

Usando sua inteligência e sua astúcia, eles podem ser mortais para os tubarões. Matá-los a mordidas? Oh, não! Os golfinhos nadam em torno e martelam, nadam e martelam. Usando seus focinhos bulbosos como clavas, eles esmagam metodicamente a "caixa torácica" do tubarão até que a mortal criatura deslize impotente para o fundo. Todavia, mais do que por sua perícia no combate ao tubarão, escolhemos o golfinho para simbolizar as nossas idéias sobre como tomar decisões e como lidar com épocas de rápidas mudanças devido às habilidades naturais desse mamífero para pensar construtiva e criativamente. Os golfinhos pensam? Sem dúvida. Quando não conseguem o que querem, eles alteram os seus comportamentos com precisão e rapidez, algumas vezes de forma engenhosa, para buscar aquilo que desejam.  Golfinhos procuram sempre o equilíbrio, jogam o ganha-ganha, procuram sempre encontrar soluções que atendam as necessidades de todos.
Declaração que o golfinho faz para si mesmo:

"Sou um golfinho e acredito na escassez e na abundância potenciais. Assim como acredito que posso ter qualquer uma dessas duas coisas – é esta a nossa escolha - e que podemos aprender a tirar o melhor proveito de nossa força e utilizar nossos recursos de um modo elegante, os elementos fundamentais do modo como crio o meu mundo são a flexibilidade e a capacidade de fazer mais com menos recursos".

Partindo desta metáfora, podemos perceber o mundo com a crença da carpa, do tubarão ou do golfinho e com isso escolher quais atitudes teremos na vida. Quando as pessoas estão em grupo percebe-se, três comportamentos básicos atuando: Omissão, Competição e Cooperação. Analisando estas atitudes, podemos perceber quais as crenças que estão por trás delas impulsionando-as a existir. Na omissão, percebe-se a crença da carpa a qual leva ao perde-perde, ou seja, a pessoa aliena-se, conforma-se ou está indiferente ao processo do grupo e todos inclusive ela perde com isso, quando está funcionando o Tubarão a direção é para a competição chegando ao ganha-perde - apenas um lado ganha; e no golfinho a Cooperação, onde ocorre o ganha-ganha, os dois lados conseguem satisfazer suas necessidades da melhor maneira possível para ambos.

É notório que as pessoas normalmente assumam atitudes diferentes dependendo do contexto e ambiente em que estão naquele momento, devido aos diversos papeis que assumem em suas vidas, mas por mais diferentes que possam ser essas atitudes, nota-se que existe um padrão que as rege, independente do papel que a pessoa assuma naquele momento.

Este padrão interno sobrepõe-se a tudo e rege as atitudes básicas de uma pessoa. A esse padrão a PNL denominou sistema de crenças e valores (Dilt’s, Halbon e Smith). O comportamento humano está intrinsecamente ligado a este sistema, que pode ser comparado com as raízes, se compararmos o ser humano a uma planta. Esse sistema, como as raízes, formam-se e crescem durante anos, sendo solidificado e reforçado a partir das vivências e estímulos recebidos do mundo externo. Ele determina, quais comportamentos a pessoa terá, sendo que esses comportamentos mudarão a partir do momento que esse sistema também mudar. Mesmo que em alguns momentos uma pessoa possa parecer ter assumido um comportamento diferente, se seu sistema de crenças e valores não modificar-se juntamente com eles, aquele não será o seu "padrão de funcionamento", não é seu "modus operandi" real. Para a pessoa agir de modo diferente, sem ter mudado internamente suas crenças, ela necessita vestir máscaras, ou seja, utilizar-se de "artifícios" para mostrar algo que de fato não tem para dar naquele momento, mas precisa aparentar devido a uma solicitação externa de algum tipo, que mobiliza nela essa necessidade. Isto pode funcionar por algum tempo, mas não todo o tempo, pois gera um estado neurótico e grande dualidade dentro da pessoa. Esse mecanismo necessita de muita energia psíquica para ser mantido, gerando grande exaustão, estresse e até futuramente uma psicose para que o sistema continue funcionando.

C.G.Jung, coloca que "O desacordo consigo mesmo produz o estado neurótico, a libertação deste estado só sobreviverá quando se puder existir e agir em conformidade com aquilo que é sentido como sendo a própria e verdadeira natureza". Esta visão se sintoniza com a visão de Jacob Levi Moreno quando descreve o conceito da Espontaneidade. "Quanto mais espontâneo, verdadeiro, coerente com seu interno o homem agir, mais saudável ele será". Portanto, é de vital importância que cada pessoa busque dentro de si suas crenças verdadeiras, aquelas que estão funcionando neste momento e a partir daí verificar se elas estão de acordo com os valores que se deseja cultivar na vida, e se convém mantê-las ou modifica-las.

Se a opção for modificar, é importante salientar que uma decisão racional não é o bastante, mas é o primeiro passo; como diz Humberto Maturana, "Cada movimento está sendo inibido à medida que ocorre" daí o valor da consciência do estado atual e das opções que estão à disposição. Uma mudança de atitude está extremamente vinculada a uma mudança de percepção, quando a pessoa percebe o mundo ao seu redor de uma forma diferente, tem a oportunidade de agir de forma diferente também, isso a leva a experimentar novas possibilidades, obtendo respostas novas do meio. Essas novas respostas podem ser mais satisfatórias e mais compensadoras que as antigas o que vai trazendo à pessoa uma forte necessidade de mudar de fato, a fim de continuar recebendo aquele tipo de resposta mais satisfatória. Portanto para uma pessoa mudar de fato, ela precisa comprometer-se com a questão e desejar muito, pois mudanças desta natureza pedem cuidado constante.

Vivenciando os Jogos Cooperativos, pode-se sentir essa diferença e analisar qual situação é mais compensadora, qual postura é mais interessante, tornando-se consciente do fato e optando-se por uma direção. As pessoas buscam seu bem estar a todo momento, mesmo quando estão proporcionando o bem estar ao outro. Dalai Lama coloca: "não podemos mais invocar as barreiras nacionais, raciais ou ideológicas que nos separam, sem repercusões destrutivas. Dentro do contexto de nossa nova interdependência, coonsiderar os interesses dos outros é claramente a melhor forma de auto-interesse."

Após tomada a consciência e tendo sentido a dimensão da necessidade da mudança optando por ela, é preciso esforço e muita coragem para empreender uma mudança profunda, como diz Peter Senge. Ele, utiliza o termo "mudança profunda" para descrever uma mudança que combina alterações internas nos valores, aspirações e comportamentos das pessoas juntamente a alterações "externas" nos processos, estratégias e práticas... "numa mudança profunda, ocorreu aprendizagem". Portanto, esta mudança profunda, vai muito além das atitudes e do ambiente. Não basta cortar o cabelo ou comprar uma roupa nova. Ela implica em limpar, cortar e replantar "raízes" internas, que cresceram durante anos numa direção muitas vezes oposta à qual deseja-se seguir neste momento. Este caminho pede determinação, perseverança, paciência e amor. Neste trilhar em busca de mudanças profundas, as pessoas passam por muitas etapas, sendo que algumas delas pode assemelhar-se à vida de um Salmão do Atlântico.

Se você não se sente carpa, tubarão ou golfinho...

Talvez, você esteja vivendo o Salmão!

O Salmão do Atlântico nasce nos pequenos riachos, calmos e límpidos. Após nascer se alimenta por um bom tempo da reserva (gema) que havia no ovo. Já um peixinho formado com 2 ou 3 cm, se alimenta de pequenos seres do leito do rio ao lado de muitos peixinhos como ele.

É assim também com o ser humano, que nasce e vive dependente das reservas que os outros fornecem. São durante certo tempo incapazes de buscar ou lutar pela vida.

Neste período, vão experimentando o mundo e assimilando a cultura ao seu redor, e com isso, formatam o sistema de crenças e valores que os vai guiar na vida.

O peixinho vai crescendo e vão surgindo manchas em seu corpo. Sua personalidade é agressiva e ele necessita auto-afirmar-se mostrando e impondo a sua força para os outros peixes de sua idade. Passa a maior parte do tempo sozinho em SEU território, o qual é bem demarcado e se invadido, é defendido com muita agressividade.

À medida que o ser humano vai se desenvolvendo dentro da estrutura social do ocidente, costuma assumir uma personalidade adolescente muito semelhante a do salmão adolescente. Quando está em grupo busca a auto afirmação, sendo que muitas vezes de forma agressiva. Na verdade, a agressividade, geralmente faz parte de seu dia a dia. Por ter uma energia de libido intensa e dificuldade para canaliza-la, a mesma escapa em determinados momentos como atitudes e comportamentos agressivos. Por vezes, essa necessidade é satisfeita de forma mais estilizada ou "politicamente" correta, na sintonia do ganha-perde, reforçando a crença da competição; esta ocupa grande parte de sua vida seja na escola, por popularidade, por sedução, por carinho e atenção, e isto pode ser feito baseando-se em princípios construtivos ou destrutivos, o que depende de seu sistema de crenças e valores. Muitas vezes nesta fase da vida, repetem-se comportamentos aceitos socialmente e inclusive reforçados pela sociedade, de atitudes competitivas de Tubarão baseadas na destruição, na falta, na "lei de Gerson", que o leva mais e mais a novas atitudes competitivas e com isso recebendo-as em troca (comportamento gera comportamento) enxergando e acreditando que o mundo funciona assim e que ele necessita ser assim também, se deseja viver neste mundo.

O Salmão nada sempre em frente, vivendo em rios cada vez maiores e com isso estando cada vez mais distante dos seus semelhantes. Esse nadar sempre adiante é um impulso inconsciente que o leva cada vez mais próximo do oceano.

A medida que vai amadurecendo, É comum, o ser humano, desejar seguir sempre em frente, buscando novos horizontes, "evoluir", crescer, "chegar lá", "ser alguém na vida". Se esse desejo estiver baseado na crença de que outros precisam perder para ele conseguir vencer seus desafios, tenderá a se afastar cada vez mais de seus semelhantes, encarando seus companheiros de trabalho, amigos e até familiares como concorrentes e obstáculos a serem vencidos, com isso omitindo-se ou cedendo como a carpa ou agindo como o Tubarão dilacerando as vítimas para poder vencer e chegar mais "longe". Nesse contexto muitas vezes esse "longe" o leva para tão distante dos outros e de si mesmo que só lhe resta caminhar mais e mais para longe dos outros e de si, a fim de alcançar algo que nem ele, muitas vezes, sabe mais o que é.

À medida que o Salmão vai adentrando o oceano, seu organismo começa a mudar internamente de forma radical, sofrendo grandes transformações para se adaptar a água salgada. Se essas transformações ocorressem com um ser humano, seria como se uma pessoa mudasse o organismo e em vez de respirar oxigênio (O2) passasse a respirar gás carbônico (CO2). Externamente ele também muda. As manchas em sua pele, vão gradativamente desaparecendo e a pele vai mudando de textura, assumindo um tom prateado, característico dos peixes do mar. À medida que o salmão vai mudando o seu corpo, ele também muda progressiva e radicalmente sua personalidade, passa de um comportamento agressivo e individualista (altamente competitivo), para agregativo e compartilhador (altamente cooperativo) vivendo em grupo, juntamente com os outros salmões.

Algumas pessoas, conforme vão avançando na vida em direção às suas necessidades, vão desenvolvendo uma nova visão do mundo e da vida. Passando por intensas transformações, que acontecem de dentro para fora, assim como acontece com o Salmão. Vão mudando internamente, e isto acaba refletindo em sua imagem externa. À medida que isto ocorre, sua atitude e comportamento também mudam. Com uma outra visão de mundo, e das possibilidades que existem, passa a conviver com seus semelhantes, pois eles deixam de representar uma ameaça, não acreditando mais na escassez, não precisa mais se defender, muito pelo contrário passa a compartir e descobre a riqueza do conviver.

Após um bom tempo, o grupo sente um forte impulso para retornar aos rios, voltar ao lugar onde nasceram (origens) e empreendem uma grande jornada de volta. Neste retorno, sua pele prateada muda de textura tornando-se opaca. Eles passam pelos largos rios calmos e tranqüilos de sua adolescência e tem tanta pressa em atingir seu objetivo que não descansam e não comem, eles precisam chegar logo...

Quando as pessoas estão em grupo, compartilham suas visões e passam a ter visões compartilhadas, enxergando a realidade com um colorido novo. Juntamente com essa nova visão de mundo, novos desafios surgem, os quais estimulam todos a participar. Seu envolvimento, com esse desafio é muito maior que com os desafios que tinham quando viviam sozinhos e a motivação para conquistá-los também. Buscando metas em conjunto o indivíduo sente-se forte, pois ele não é mais sozinho, a energia do grupo o alimenta e energiza.

A cada quilômetro o trajeto se torna mais desafiante, o grupo de salmões, precisa vencer além dos quilômetros, as corredeiras. Subir as corredeiras os deixam exaustos e quase sem forças, neste momento alguns tentam desistir, mas vendo a luta dos outros para subir, voltam a pular e pular até conseguir e continuam nadando sem descanso até chegarem às águas calmas de sua infância.

Quanto mais as pessoas avançam buscando suas metas na sintonia da cooperação e do ganha-ganha, muitas vezes os desafios aumentam tornando-se cada vez maiores. Atravessar alguns destes desafios muitas vezes parece impossível surgindo em alguns um sentimento de impotência, onde a pessoa sente-se sem forças para seguir adiante, percebendo-se perdida, desejando em muitas situações desistir e voltar a precária, mas segura existência de antes. Neste momento, a força do grupo mais uma vez ajuda a seguir adiante, e a dar o impulso que faltava para transpor mais um obstáculo e buscar o objetivo comum.

O impossível para um é possível para todos.

Quando chegam aos suaves riachos onde nasceram,a fêmea coloca os ovos e o macho os fecunda. E assim o salmão, cumpre sua missão de semear novas vidas.

Quando buscamos atingir nossas metas através da cooperação podemos somar nossas competências e trazer algo à vida, fazendo nascer o novo. Contribuindo uns com os outros somos capazes de gerar mais e mais vida.

Referências:

Lannes, L. et alli - Jogos Cooperativos nas Organizações, Editora SESC-2001

Lynch,D.-Kordis,P. - A Estratégia do Golfinho, Cultrix-98

Follett, M.P. O Poder. In: Graham, P. (Org.) Mary Parker Follett: Profeta do Gerenciamento. Rio de janeiro: Qualitymark Ed., 1997.

 

 

                   

Os Jogos Cooperativos e as Inteligências Múltiplas

por Mônica Teixeira
extraído da seção "Entendendo os Jogos" da edição 1 do ano II  da Revista Jogos Cooperativos.

O Luizinho da segunda fila

Marcelo é um excelente professor de Geografia. Na aula sobre o Pantanal até excedeu-se. Falou com entusiasmo, relatou com detalhes, descreveu com precisão. Preencheu a lousa com critério, soube fazer com que os alunos descobrissem na interpretação do texto do livro a magia dessa região quase selvagem. Exibiu um vídeo, congelou cenas e enriqueceu-as com detalhes, com fatos experimentados, acontecimentos do dia-a-dia de cada um.

Em sua prova, é evidente, não deu outra: uma redação sobre o tema e questões operatórias que envolviam o Pantanal, seus rios, suas aves, sua vegetação... a planície imensa. Os alunos acharam fácil. Apanharam suas folhas e começaram a trazer, palavra por palavra, suas imagens para o papel. As canetas corriam soltas e as linhas transformavam-se em parágrafos. Marcelo sabia o quanto teria que corrigir, mas vibrava...Sentia que os alunos aprendiam. Descobria o interesse que sua ciência despertava. Não pôde conter uma emoção diferente quando Heleninha, sua aluna predileta, foi até sua mesa e arfante solicitou:

-Posso pegar mais uma folha em branco?

O único ponto de discórdia, o único sentimento opaco que aborrecia Marcelo, era o Luizinho, aquele da segunda fila. – Puxa vida! – pensava – Luizinho assistira todas as suas aulas, arregalara os olhos com as explicações e agora, na prova, silêncio absoluto, imobilidade total... nem sequer uma linha. Sentiu ímpetos de esganar. Luizinho pagaria seu preço, iria certamente para a recuperação. Se duvidassem poderia, até mesmo, leva-lo à retenção. Seria até possível arrancar um ano inteirinho de sua vida...

Minutos depois, avisou que o tempo estava terminado. Que entregassem suas folhas. Viu então que, rapidamente, Luisinho desenhou, na primeira página das folhas da prova, o Pantanal. Rico, minucioso, preciso. Marcelo emocionou-se, ao ver aquele quadro, de irretocável perfeição, nas mãos de Luizinho que coloria as últimas sobras. Entusiasmado indagou:

-E aí, Luis? Você já esteve no Pantanal?

Não. Luizinho jamais saíra de sua cidade. Construiu sua imagem a partir das aulas ouvidas. Marcelo sentiu-se um gigante e, de repente, descobriu-se o próprio Piaget. Havia com suas palavras construído uma imagem completa, correta e absoluta na mente de seu aluno.

Mas, deu zero pela redação. É claro. Naquela escola não era permitido que se rabiscassem as folhas da prova.

A história de Luizinho repete-se em muitas escolas.

Sua Inteligência pictórica é imensa, colossal, lúcida, clara e contrasta visivelmente com as limitações de sua competência verbal. Expressou o que sabia, da maneira como conseguia. Mas, não são todos os professores que se encontram treinados para ouvir linguagens diferentes da que a escola instituiu como única e universal.

(Trecho do Livro Marinheiros e Professores, 6a ed., Petrópolis, Vozes, 2000, p. 72-73, Celso Antunes)

A " descoberta" da Inteligência

A história de Luizinho continua repetindo-se em muitos cenários dentro e fora do Brasil; crianças, adolescentes e adultos que por responderem de forma diferente do que o desejado são colocados na posição desconfortável e muitas vezes aniquiladora do "incompetente", ou seja, aquele que mostra-se não capacitado a desenvolver certa tarefa. Seria isso?

No século XX nossa sociedade maravilhou-se com a possibilidade de medir a inteligência de um sujeito, através dos famosos testes de QI - cujo resultado expressa o coeficiente entre a idade mental pela idade cronológica, multiplicado por 100. Saber se alguém era ou não inteligente mostrava-se fundamental para "classificar" ou "desclassificar" alguém para uma tarefa ou um cargo. Todo esse processo e comportamento social que foi criado baseado nesse movimento, reforçou ainda mais problemas de auto-estima e todos os "autos" que conhecemos, pois pessoas eram excluídas e rotuladas em processos mecânicos onde muitas vezes acreditavam realmente ser menos que os outros e "levavam" esse "peso limitante" por toda a vida. Claro que meu objetivo aqui não é julgar tais testes, os quais conheço bem pois os utilizei no inicio de minha atuação profissional como psicóloga, entendendo ser este o caminho correto visto que era o único que conhecia.

Felizmente, em 1980 Howard Gardner lançou um livro chamado Inteligências Múltiplas, que fez muito sucesso no mundo inclusive no Brasil, mudando a visão e ação de muitos educadores e profissionais, sendo hoje prática pedagógica em inúmeras escolas em todo mundo. Segundo Gardner há uma outra perspectiva para a inteligência "...podemos entender a Inteligência como a capacidade de resolver problemas ou de elaborar produtos que sejam valorizados em um ou mais ambientes culturais ou comunitários" diz Gardner.

Dentro desta perspectiva entende-se que as pessoas são apenas diferentes umas das outras. Portanto, o papel do educador é aceitar essas diferenças como algo natural, visto que todos temos "forças" e "fraquezas", sendo um grande engano acreditar que existe uma única inteligência em termos da qual todos poderiam ser comparados. Desta forma é fundamental que o educador, seja ele de crianças, adolescentes ou adultos, dirija-se ao educando da forma mais direta e pessoal possível, a fim de "alcançar" aquela pessoa. Sabe-se que em processos de comunicação, a responsabilidade pela qualidade da comunicação é do emissor e não do receptor.

Mas do que tratam as Inteligências Múltiplas?

Gardner em seu livro: "Inteligências Múltiplas – A teoria na prática", define sete tipos de inteligências:

•Inteligência lingüística - é o tipo de capacidade exibida em

sua forma mais completa, talvez, pelos poetas. Quando trabalhada esta inteligência, leva a pessoa a expressar-se com mais clareza utilizando-se da fala e escrita para expressar sua realidade, sonhos e relacionar-se.

•Inteligência lógico-matemática - como o nome indica, é a capacidade lógica e matemática, assim como a capacidade científica. O estímulo para seu desenvolvimento estruturam na pessoa novas formas sobre o pensar e uma percepção apurada dos elementos da grandeza, peso, distância, tempo e outros que envolvem ação sobre o ambiente.

•Inteligência espacial - é a capacidade de formar um modelo mental de um mundo espacial e de ser capaz de manobrar e operar utilizando esse modelo. Quando estimulada desperta a pessoa para a compreensão mais ampla do espaço físico e temporal onde vive e convive e sensibiliza para a identificação de suas referências de belezas e fantasias.

•Inteligência musical - está ligada às pessoas que conseguem identificar sons, ler e criar músicas com facilidade, expressando-se através desta linguagem.

•Inteligência corporal-cinestésica - é a capacidade de resolver problemas, comunicar-se ou de elaborar produtos utilizando o corpo inteiro, ou partes do corpo, controlando os movimentos e manipulando objetos com destreza. O estímulo dessa inteligência pode privilegiar dois campos que se complementam: a sensibilidade ampla, ligada a força, equilíbrio, destreza e outras manifestações do corpo como um todo, ou a sensibilidade fina ligada ao tato, paladar, olfato, visão, atenção e outros componentes. Seu estímulo ensina a pessoa a "ver"e não apenas olhar.

•Inteligência interpessoal - é a capacidade de compreender outras pessoas: o que as motiva, como elas trabalham, como trabalhar cooperativamente com elas. Buscar a empatia com abertura e controle emocional a fim de responder adequadamente as atitudes, emoções, motivações e desejos das outras pessoas.

•Inteligência intrapessoal - é uma capacidade correlativa, voltada para dentro, de formar um modelo acurado e verídico de si mesmo e de utilizar esse modelo para operar efetivamente a vida, ou seja de buscar o autoconhecimento, tendo uma boa percepção de sua identidade assim como a capacidade de discernir e dominar suas emoções.

Após esse primeiro momento continuando seus estudos em seu instituto, Gardner encontrou mais três inteligências:

•Inteligência Pictográfica - observada em pessoas que conseguem se expressar pela pintura, desenho, escultura ou imagens gráficas.

•Inteligência Naturalista - competência do homem de entender o mundo e a natureza, perceber e compreender a sua mortalidade, a vida como um todo e as diferenças entre os diversos tipos de vida existentes no planeta.

•Inteligência Existencial – Fazer perguntas básicas sobre a vida, a morte, o universo. Capacidade da pessoa em situar-se ao alcance da compreensão integral do cosmos, do infinito e o infinitesimal, assim como a capacidade de dispor de referências a características existenciais da condição humana, compreendendo de maneira integral o significado da existência, portanto, da vida e da morte, o destino do mundo físico e psicológico e a relação do amor por um outro, pela arte ou por uma causa.

Com essa descoberta Gardner quebrou paradigmas e a este respeito Celso Antunes diz: "Esses paradigmas, ainda que não modifiquem os tradicionais conceitos usados para definir "Inteligência", alteram, e de forma extremamente sensível, a compreensão sobre como aprendemos ou não aprendemos, e principalemtne substitui a concepção de que possuímos "apenas uma inteligência". Derruba-se o mito de que a transmissão de informações pode tornar pessoas receptoras mais inteligentes e descobre-se que, na realidade, abrigamos um elenco extremamente diversificado de "diferentes" Inteligências, sensíveis a estímulos que, se aplicados através de um projeto e nas idades convenientes, altera profundamente a concepção que o ser humano faz de si mesmo e os limites de suas potencialidades."

O que tudo isso tem a ver com os Jogos Cooperativos?

Sabemos hoje o quanto os jogos de uma forma geral podem aguçar sensibilidades e competências como o pensar, criar, tocar, ver, mover-se, etc. Os educadores cada vez mais utilizam os jogos como método pedagógico de ensino. Entendo que os Jogos Cooperativos e a Pedagogia da Cooperação estão perfeitamente alinhados com as idéias de Gardner quanto ao desenvolvimento das Múltiplas Inteligências em muitos aspectos.

Os Jogos Cooperativos são versáteis, com regras flexíveis e por isso adaptam-se a todo tipo de pessoas, grupos, espaços e competências. Facilitando inclusive a utilização de mesmas estruturas para diferentes disciplinas sem perder o desafio do jogo. De forma geral, os jogos têm uma estrutura simples, o que permite certa facilidade na aplicação, e profundidade no momento da exploração do jogo e relação com o conteúdo que se deseja trabalhar de forma ampla, auxiliando na construção do conhecimento, e também de valores e identidade. São Jogos Inclusivos, ou seja, reforçam competências existentes e desenvolvem outras de forma respeitosa, sendo exatamente a inclusão, um dos princípios fundamentais da Pedagogia da Cooperação e do Jogo Cooperativo. Todos participam, cada qual com suas competências, naquele momento, e não existem cobranças ou julgamentos, pois nessa proposta o que importa é o todo, o trabalho do grupo e não a comparação individual como nos jogos competitivos. O processo é muito mais valorizado que o resultado. Se existe alguém com uma limitação que impediria sua participação, esse é um desafio para que o grupo encontre alternativas onde o jogo seja possível para todos, e ao mesmo tempo o jogo seja interessante e desafiador. Nos Jogos Cooperativos, valoriza-se quem joga, muito mais do que o jogo e desta forma pode-se experimentar o verdadeiro VenSer.

Referências:

Gardner, Howard, Inteligências Múltiplas: A teoria na prática. Porto Alegre: Artes Médicas, 95

Antunes, Celso. Jogos para a estimulação das Múltiplas Inteligências. 7 ed. Petrópolis: Vozes, 98

Antunes, Celso. Coleção na Sala de Aula - Vozes,01

Fascículo 3 - Como desenvolver conteúdos explorando as Inteligências Múltiplas

Fascículo 4 - Como identificar em você e sseus alunos as Inteligências Múltiplas.

Armstrong, Thomas. Inteligências Múltiplas em sala de aula. 2 ed. Portio Alegre: Ed ArtMed, 01

 

 

                   

Os Jogos Cooperativos e a Construção de Valores Positivos para nossa Sociedade

por Mônica Teixeira e Luciano Lannes
extraído da seção "Entendendo os Jogos" da edição 2 do ano II  da Revista Jogos Cooperativos.

Um dia destes quando levava minha filha para a escola vi um outdoor de uma grande rede de ensino, onde estava escrito:

- O que você prefere ser ?

Servo ou Senhor Feudal !

Parei por alguns instantes e reli a frase, buscando compreender seu real significado e intenção daquela mensagem. De fato, a metáfora utilizada me causou um profundo incômodo. Não queria crer que um colégio de renome, estivesse passando conscientemente os valores transmitidos no outdoor à seus alunos. Será que na sociedade em que vivemos, só restam estas duas opções – ser explorado ou explorador?

Para que possamos entender melhor o Jogo da vida, vale a pena refletirmos sobre duas crenças que a sociedade criou e sobre as quais alicerça seus modelos econômicos e sociais; crenças da Abundância e da Escassez.

A Crença da Abundância.

Quando uma sociedade é regida pela crença da abundância, onde acredita que existe o bastante para atender as necessidades de todos, seus membros não precisam competir para obter seu sustento, ou para melhorar as condições gerais de sua sociedade. Dentro desta crença, o potencial de recursos não é limitado e desta forma tanto a sobrevivência quanto o conforto de seus membros está garantida. Entretanto a otimização da exploração uso e distribuição dos recursos, requer um Jogo Cooperativo entre seus membros, o que Terry Orlick define como Cooperação não Competitiva, onde o alcance do objetivo necessita de trabalho conjunto e partilha, e a cooperação é um meio para se alcançar um objetivo mutuamente desejado e que é também compartilhado. É importante realçar que a crença da Abundância não considera que determinados recursos nunca serão extintos, mas que existem outras possibilidades à serem exploradas, fruto da inteligência e natureza criativa humana. Dentro desta crença, não existe o menor sentido em segmentar a sociedade em explorados e exploradores, pois o ganho de um independe do fracasso ou submissão de outro. Nem tampouco estamos falando sobre sociedades uniformes, padronizadas, onde todos possuam absolutamente as mesmas coisas. Podemos conquistar um maior número de bens, conforto ou padrão de vida, proporcional ao nosso trabalho, empenho e ambição, desde que isto não implique na perda proporcional por outras pessoas, seja no montante dos recursos, seja na exploração destas pessoas para nosso benefício próprio.

A Crença da Abundância somente é suportada por um modelo cooperativo, onde a soma das competências e habilidades dos membros de sua sociedade, encontrará respostas para o desafio da continuidade da abundância.

A Crença da Escassez.

Outra forma de ver o mundo é sob a ótica da escassez, onde os recursos são limitados, e nem todos podem ser atendidos, tendo-se que estabelecer parâmetros de segmentação da sociedade para a distribuição dos recursos. Dentro desta crença, torna-se válida a lei do mais forte. A natureza possui um modelo de depuração da fauna e da flora, através da sobrevivência dos mais adaptados ao meio ambiente e eliminação dos mais vulneráveis. Estas características genéticas dos membros mais adaptados são transmitidas às novas gerações, melhorando por assim dizer a "performance" daquela espécie no planeta, como seu desempenho e longevidade. O homem lança mão deste modelo para explicar e justificar sua crença de que os mais adaptados devem sobreviver em detrimento dos menos adaptados. Quando falamos sobre adaptabilidade humana, estamos quase que exclusivamente nos valendo de parâmetros econômicos, julgando bem adaptados aqueles que acumularam riquezas e não adaptados os que não.

O sucesso econômico de uma pessoa e portanto sua adaptabilidade ao planeta, dependem também das condições de acesso a fatores que propiciem sua inclusão no cenário econômico como por exemplo educação de qualidade. Voltamos ao Outdoor que traça com nitidez esta linha lógica dentro da Crença da Escassez, entre acesso a educação diferenciada e inclusão no mercado de trabalho.

Mas afinal, nosso mundo é de escassez ou de abundância?

 

Tudo depende para onde olhamos

 

Imagine a seguinte situação.

"- Um casal está em seu quarto e ambos desejam tomar leite, e só trouxeram um copo de leite para o quarto."

Sendo a quantidade de leite disponível limitada a um copo, o casal pode partilhar de seu conteúdo, onde cada um beberá a metade. Considerando que no quarto ao invés de um casal em harmonia existam dois adolescentes no auge de suas crises hormonais, a disputa pelo único copo de leite poderá ter sérias conseqüências. Se nos restringirmos ao quarto, há escassez de leite e o comportamento das pessoas será orientado por suas crenças e modelos.

Se ampliarmos nossa visão para a casa como um todo, veremos a cozinha onde existe uma quantidade de leite na geladeira e outra armazenada na despensa. Agora não existe mais a escassez, e passamos a um modelo de abundância.

Ampliando ainda mais nossa visão, como em uma vista aérea, veremos a padaria, a venda, o supermercado, locais onde existe muito leite. Já com uma vista de satélite, veremos fazendas de criação de gado, onde produz-se leite, empresas beneficiadoras de leite, etc. Enfim, quanto mais ampla é nossa visão, mais abundância enxergamos e quanto mais restrito é nosso foco, menores são as possibilidades. Portanto sob esta ótica, meu comportamento cooperativo ou competitivo será comandado pela minha crença na escassez ou na abundância, que por sua vez está ligada a minha forma de ver e me relacionar com o mundo, de uma maneira restrita e limitada, ou de forma ampla e irrestrita.

Neste momento queremos conectar principalmente a disseminação destes modelos através dos Jogos, pois quando estamos em um jogo com um determinado número de pessoas, formamos como diz Orlick, uma minissociedade com suas regras, estilos de relações, recompensas e punições. Antes porém, para relacionarmos estas minissociedades com nossa grande sociedade, vamos nos utilizar da teoria dos Fractais.

Modelos dos Fractais.

Você já pensou no que há em comum entre as ramificações dos brônquios, o traçado dos rios que formam uma bacia hidrográfica, a forma de uma cadeia de montanhas e a penetração de óleo em rochas porosas? Aparentemente nada. Todos esses casos, porém apresentam formas geométricas caracterizadas por modelos básicos que são repetidos mesmo em escalas muito pequenas. É o universo dos fractais e dos atratores, uma nova e rica área interdisciplinar que proporciona uma maneira diferente de enxergar a natureza.

Não há ainda uma definição fechada do que são fractais. De maneira bem geral, uma fractal é uma forma feita de partes similares de algum jeito com o todo. Essa definição genérica foi sugerida pelo matemático polonês Benoit Mandelbrot, considerado o pai das fractais, que utilizou o termo "fractal" pela primeira vez em 1967. Originário do adjetivo latino fractus e do verbo frangere (irregular, quebrar, fraturar), o vocábulo se popularizou depois que o polonês publicou, em 1982, o livro The Fractals Geometry of Nature. A palavra passou então a caracterizar as formas irregulares e as novas geometrias por ele descobertas, seja na geologia, na turbulência de fluídos ou no mercado financeiro.

Fenômenos como a variação do tempo, a formação dos flocos de neve, ou a dinâmica das populações, pareciam totalmente aleatórios. Entretanto, ao estudar os fractais, cientistas e matemáticos notaram que alguns deles imitavam tais fenômenos. Com isso, ao invés de randômicos, estes sistemas passaram a ser considerados caóticos, ou seja, embora sujeitos a uma forma e ordem próprias, eles podem ser equacionados. Uma característica de um sistema caótico é que ele sempre mostra "sensibilidade às condições iniciais", isto é, qualquer perturbação no estado inicial do sistema, não importando quão pequena seja, levará rapidamente a uma grande diferença no estado final, fazendo com que a previsão do futuro torne-se muito difícil. Porém, compreendendo o comportamento caótico, muitas vezes é possível entender como o sistema se comportará como um todo ao longo do tempo.

Fractais e nossa Sociedade.

Da mesma forma, nossos jogos em pequenos grupos repetem e perpetuam modelos globais da sociedade, principalmente

referentes a suas crenças e valores. Os jogos infantis são excelentes instrumentos de transmissão da cultura de uma sociedade.

Orlick (1989) diz que: "- ...quando participamos de determinado jogo, fazemos parte de uma minissociedade, que pode nos formar em direções variadas. Uma vez formados pelas regras, pelas reações dos outros, pelas recompensas e punições, tornamo-nos parte do jogo e começamos a formar outros. Dessa forma o jogo ganha vida e poder, independente dos jogadores.

Em vez de criar minissociedades ou jogos, que refletem de forma pura a competitividade, a desonestidade e a cobiça da sociedade maior, por que não desenvolver jogos que criem uma miniatura de utopias em que gostaríamos de viver? Por que não criar e participar de jogos que nos tornem mais cooperativos, honestos e atenciosos para com os outros? Por que não usar o poder transformador dos jogos para ajudar a nos tornarmos o tipo de pessoa que realmente gostaríamos de ser?".

 

Nos acostumamos com determinadas expressões como "visão holística" e "visão global, ação local", sem entretanto exercitarmos seu ensinamento, que vale lembrar o ditado Zen: "- Saber e não fazer, é ainda não saber".

A visão holística ou do todo, é o que exatamente nos permite visualizar um mundo de recursos e possibilidades praticamente inesgotáveis. Precisamos privilegiar modelos pedagógicos que incentivem as pessoas a olhar além, a buscar outras possibilidades que obrigatoriamente passarão pelo desafio da convivência, da conquista da confiança e da celebração conjunta da vitória. Como fantástico instrumento do exercício de valores positivos para uma nova sociedade, estão os Jogos Cooperativos, que através da criação de "minissociedades" através do exercício do jogo, podem exercitar modelos de relacionamentos, produção e distribuição de bens que gostaríamos de viver em nosso mundo real e elaborar estratégias para ampliar o horizonte do nosso jogo, do quarto para a casa, da casa para o quarteirão, do quarteirão para o bairro, a cidade, o estado, o país, o planeta....

As im-possibilidades são infinitas; tudo depende de nós.

 

 

 

                   

Da Rivalidade-Competitiva ao Humanismo-Altruísta

por Mônica Teixeira
extraído da seção "Entendendo os Jogos" da edição 3 do ano II da Revista Jogos Cooperativos.

O principal objetivo desta coluna é proporcionar ao leitor, reflexão, inquietação e algumas " viagens" por pontos de vista e teorias ligadas aos Jogos Cooperativos e à Pedagogia da Cooperação.

Quando falamos do tema "competição e cooperação" muito vem a tona, e por vezes torna-se confuso e complicado avaliar certos comportamentos e atitudes dentro do contexto social atual; se separarmos de forma estanque, a competição e a cooperação, pois desta forma o que temos são dois pólos opostos que muitas vezes não contemplam todas as possibilidades e nuances da vida.

Em 1989 Terry Orlick escreveu o livro Vencendo a Competição(1), uma espécie de marco para os Jogos Cooperativos, infelizmente já esgotado em sua edição em português, onde aborda com profundidade e consistência várias questões, trazendo uma visão diferente para os modelos sociais e mentais que conhecemos e que até então eram praticamente tidos como única opção.

O relato de Orlick sobre a competição, cooperação e os padrões sociais vigentes é muito rico e profundo, ou seja, uma análise social e psicológica enriquecedora.

Após ler e refletir sobre o trabalho de Orlick, fica claro o quão simplista é a idéia de traduzir um comportamento, como cooperativo ou competitivo, pois comportamentos são multifacetados, ocorrendo o mesmo quando tratamos do binômio competição - cooperação.

Nesta direção, Orlick trouxe portanto uma visão muito interessante, verificando e demonstrando que pode-se ser competitivo e destrutivo ou simplesmente buscar aquilo que se deseja e necessita, pensando em si mesmo individualmente sem destruir ninguém, assim como pode-se ser cooperativo e altruísta buscando a solidariedade porque isso faz bem para os outros.

Na tabela ao lado, Orlick relaciona vários tipos de comportamento que podem ocorrer entre a competição e cooperação e de acordo com a orientação interna existente no individuo.

Ele apresenta a Rivalidade Competitiva, Disputa Competitiva e o Individualismo com as respectivas orientações: anti-humanista, contra os outros e egocêntrica. Estes comportamentos compõem um tipo de relação desumanizadora, onde não há preocupação com o outro.

Outros comportamentos são a competição cooperativa ou o que alguns chamam atualmente de co-opetição, a cooperação não competitiva e o auxílio cooperativo. Em todos esses comportamentos a orientação é humanista que gera relações humanizadoras onde valores positivos e a preocupação com o outro é fundamental.

Eu particularmente acredito que a cooperação seja sempre a melhor opção. Sendo assim, quando a opção é por comportamentos cooperativos e por uma visão humanista, ocorre a construção de relações baseadas na ética, no amor, no respeito, na solidariedade e na confiança.

Quando jogamos, demonstramos na maneira como jogamos quem somos e como nos relacionamos com o mundo a nossa volta. Orlick faz vários questionamentos e este em particular é muito interessante: "Porque não desenvolver jogos que criem uma miniatura das utopias que gostaríamos de viver? Porque não criar e participar de jogos que nos tornem mais cooperativos, honestos e atenciosos para com os outros?"

Os Jogos são ferramentas poderosas para auxiliar na formação e mudanças de comportamentos através da consciência das orientações e modelos mentais existentes, pode-se escolher conscientemente qual caminho seguir.

Quando abordamos essa questão em cursos, muitas pessoas acreditam que a melhor opção seja a cooperação de maneira ampla, mas que sentem-se em muitas situações com certa "desvantagem" ou até mesmo "meio idiotas"; pois os outros levam vantagem sobre aqueles que estão buscando outro tipo de atitude. Então muitos perguntam: "- Mas se todos os outros fazem de outra forma e só eu respeito, coopero, sou solidário, o que isso mudaria afinal?

Para refletir sobre isso vou compartilhar uma breve história muito interessante: -um garoto foi a uma festa de aniversário e sua mãe recomendou que ele comesse os brigadeiros somente após o parabéns, não antes. O menino obedeceu a mãe. Após o parabéns o menino foi comer os brigadeiros e já não havia sobrado nenhum, pois as outras crianças haviam comido todos os brigadeiros durante a festa, antes do parabéns. O menino voltou para casa chorando e questionando a mãe que ficou perdida e escreveu o caso para um jornal local pedindo ajuda a um especialista.

No caso acima muitos pais diriam algo assim:

- Da próxima vez, se os outros estiverem comendo antes, coma também os brigadeiros e pronto! Ou; - Se os outros não respeitam então que se dane! Coma tantos quanto puder, não seja bobo!

Minha questão é: Até onde devemos sacrificar algo que acreditamos ser uma atitude correta em prol de levar vantagem, não ser "feito de bobo" ou de ser mais competitivo e ganhar dos outros?

Até onde deve-se defender ou abrir mão de um valor?

Qual é o limite que se suporta para manter uma determinada atitude? Como você se sente quando enfrenta um congestionamento na estrada e outros motoristas utilizam o acostamento como pista? Você mantém seus princípios?

Certa vez ouvi em um curso uma estatística, resultado de uma pesquisa norte americana, demonstrando que quando uma pessoa muda de fato seu comportamento faz com que outras cinco pessoas possam ser "contaminadas" também, por um novo modelo de comportamento e que isto a leva a modificar suas ações se assim for de sua vontade; e então "contaminar" mais pessoas. Acredito que isto de fato ocorra quando no trânsito, no supermercado, no trabalho, na fila, etc...mostramos um comportamento cooperativo, estamos contribuindo positivamente para uma sociedade mais cooperativa e humanista.

Por isso nossa atenção com os grandes e pequenos atos, com as palavras e até mesmo nossos pensamentos é muito importante pois é no dia a dia que ocorre o mais importante Jogo Cooperativo.

Referências:
(1)Orlick, Terry. Vencendo a Competição. São Paulo; Círculo do Livro, 1989

CATEGORIA DE COMPORTAMENTO ORIENTAÇÃO MOTIVAÇÃO PRINCIPAL
Rivalidade competitiva

 

 

 

Disputa competitiva

 

 

 

 

 

Individualismo

 

 

 

Competição cooperativa

 

 

 

Cooperação não competitiva

 

 

 

Auxílio cooperativo

 

Anti-humanista

 

 

 

Dirigida para um objetivo (contra os outros)

 

 

 

 

 

Em direção ao ego

 

 

 

Em direção ao objetivo (levando em conta os outros)

 

 

 

Em direção ao objetivo (levando em conta os outros)

 

 

 

Humanista-altruísta

 

Dominar o outro. Impedir que os outros alcancem seu objetivo. Satisfação em humilhar o outro e assegurar que não atinja seus objetivos.

A competição contra os outros é um meio de atingir um objetivo mutuamente desejável, como ser o mais veloz ou melhor. O objetivo é de importância primordial e o bem-estar dos outros competidores é secundária. A competição é as vezes orientada para a desvalorização dos outros.

Perseguir um objetivo individual. Ter êxito. Dar o melhor de si. O foco está em realizações e desenvolvimento pessoais ou o aperfeiçoamento pessoal, sem referência competitiva ou cooperativa a outros.

O meio para se atingir um objetivo pessoal, que não seja mutuamente exclusivo, nem uma tentativa de desvalorizar ou destruir os outros. O bem-estar dos competidores é sempre mais importante do que o objetivo extrínseco pelo qual se compete.

Alcançar um objetivo que necessita de trabalho conjunto e partilha. A cooperação com os outros é um meio para se alcançar um objetivo mutuamente desejado, e que é também compartilhado.

Ajudar os outros a atingir seu objetivo. A cooperação e a ajuda são um fim em si mesmas, em vez de um meio para se atingir um fim. Satisfação em ajudar outras pessoas a alcançar objetivos.

 

 

                   

O Sabor da Vitória

por Mônica Teixeira
extraído da seção "Entendendo os Jogos" da edição 3 do ano II da Revista Jogos Cooperativos.

A vida é feita e recheada por nossas vivências e as sensações que obtemos com ela. Lair Ribeiro, citado em Jogos Cooperativos no Processo de Aprendizagem Acelerada (2003), diz: "Se uma onda eletromagnética não é cor até ser percebida pela visão, se uma vibração não é som até ser captado pela audição, e se um composto químico não é cheiro nem sabor até ser detectado pelo bulbo olfativo ou entrar em contato com a língua, nada do que experimentamos como realidade exterior, existe realmente até que seja captado e interpretado pelos nossos sentidos. Vivemos, todos em uma realidade virtual."

Isto quer dizer que não conhecemos a natureza da realidade de forma única, mas a interpretamos de acordo com nossas percepções acerca da realidade. Baseados nesse contexto, vamos analisar mais detidamente o sabor. Povos diferentes tem percepções diferentes acerca do sabor dos alimentos. Mexicanos, japoneses, hindus, amazonenses e gaúchos, etc... possuem culinárias características e temperos peculiares. Uma criança que nasceu e cresceu em um determinado povo, a princípio estranhará o tempero de outro. Entretanto, estranhar não quer dizer necessariamente não gostar; significa apenas, achar diferente de tudo o que estava acostumado. Esta experiência traz uma ampliação das possibilidades de combinações de sabores e aromas. Alguns sabores são muito marcantes, como o daquele doce que mamãe fazia quando éramos crianças, e nunca mais conseguimos sentir o mesmo sabor. Fora o paladar dos ingredientes, aquele doce tinha o sabor da infância, de férias na casa da avó, de liberdade e um mundo maravilhoso a ser desbravado. Este sabor é difícil de ser reproduzido pela combinação de açúcar, frutas, gelatina, leite condensado e outros. Na verdade, cada vez que saboreamos algo, o sabor é único, pois é formado pela nossa percepção, e esta possui múltiplos canais de leitura. Quando jogamos, o sabor da vitória ou da derrota é influenciado por múltiplos fatores, como por exemplo: - nossa necessidade de vencer

- outras conseqüências advindas desta vitória

- nossa relação com o adversário

- nossas experiências anteriores

- a vontade de revanche, etc.

Entretanto, a sociedade em seu processo de pasteurização da cultura, procura padronizar os sabores e as sensações tanto da vitória quanto da derrota, procurando desta forma manter os valores que norteiam aquela cultura. Assim, somos ensinados pela televisão a festejar na vitória e a chorar, na derrota. Nos acostumamos a ver em uma olimpíada, meninas e meninos, muitas vezes ainda pré-adolescentes, chorando por não terem conquistado o ouro olímpico, esquecendo-se de que a possibilidade de estar na festa de congraçamento das nações do mundo, de aprender com outros também muito bons naquilo que fazem, e principalmente de dar o seu melhor, não somente à sua equipe ou ao seu país, mas como um agradecimento à própria vida, possuem um sentido muito profundo e significativo. Porém, o que interessa no padrão atual da sociedade é o quadro de medalhas. No mesmo livro citado no início, (veja na pág. 28), Magda e Marli, capturaram um texto fantástico de Rosalba Gomes, publicado originalmente em Bases, periódico do Movimento 69, da Universidade Central de Venezuela, em 1989: "Como criança, quando brincava com meus primos, aprendi muitas coisas: o menor, o mais lento ou mais fraco de nós seria sempre o último, que teria de procurar ou outros no "esconde-esconde" e que receberia mais boladas no jogo de "caçador"; o mais vivo e esperto de nossos amiguinhos terminaria sempre sendo o primeiro: aquele que chegasse por último ao objetivo seria "burro", o objeto de todas as zombarias; o mais forte, mais atento e maior de nós estabeleceria as regras do jogo... Sobretudo, que era importante ganhar e que fracassar poderia por a perder toda a diversão... Mas ganhar nem sempre era divertido: significava inveja, revanches e tristezas, porque a alegria de ganhar costuma ser solitária, não compartilhada. Hoje, dou-me conta de que com esses jogos infantis aprendia, ou reforçava, os valores dessa sociedade injusta em que vivemos: a competição, o egoísmo, o individualismo, a agressão. Brincando, reproduzíamos o esquema de ganhadores e perdedores, manipuladores e manipulados, opressores e oprimidos. Desde então nos acostumamos a ver que a alegria e o triunfo de poucos é possível somente com a tristeza e a derrota de muitos. Que tal, então, se jogássemos reinventando os jogos, superando o medo do ridículo, fixando-nos no prazer e na alegria, antes do que em quem ganha ou perde, permitindo a participação de todos, para superar com engenhosidade o desafio, porque é importante que todos nós alcancemos a meta."

Este texto nos fala muito sobre o condicionamento para o sabor; o sabor da vitória e o sabor da derrota. Mas assim como nos encantamos quando experimentamos aquele novo prato, e passamos a incorporá-lo em nosso menu, podemos aprender novos sabores no jogo da vida. O sabor de partilhar a meta; o sabor de todos jogarem, o sabor de ninguém estar de fora; o sabor de crescer ao aprender mais; o sabor da diversão. Falamos de sabores acentuados e sabores sem graça, insossos. Muitas vezes, ouvimos: "- se não tiver a competição não tem graça". Será mesmo? Para termos a real percepção do sabor do jogo, temos que mergulhar profunda e completamente na sua experiência, procurando novos sabores. Sabores diferentes daqueles que já estamos acostumados, ao invés de tentar reconhecer sabores já conhecidos. Esta entrega, permite uma experiência de percepção muito acentuada, lembrando que nosso objetivo maior na vida, é a felicidade...de todos. Paula Falcão em seu livro "Criação e Adaptação de Jogos em T&D" (ver pág. 28), cita James P. Carse, um dos grandes pensadores sobre o mundo dos jogos e que definiu dois tipos de jogos: o jogo finito e o jogo infinito.

- No jogo finito, os jogadores jogam para chegar ao fim do jogo, custe o que custar.

- No jogo infinito, os jogadores jogam para superar os próprios limites e para continuar jogando.

Com certeza, os sabores são diferentes. Mas, só tem uma forma de descobrir. Adentre esta grande cozinha experimental, que é a vida e comece a provar novos sabores e veja quais combinam mais com você, seu jeito de ser e de viver a vida da maneira mais íntegra e profunda possível. Afinal, sabedoria está ligada a saber que vem da palavra "sapere" em latim que significa saboroso. Sábio é aquele que saboreia a vida!

                   

O que é o jogo?

por Mônica Teixeira

Atendendo a pedidos de nossos leitores, nas próximas colunas vamos abordar o jogo de forma geral. Para isso, começaremos navegando um pouco sobre diversos autores e suas opiniões.
Segundo autores como FREIRE, FRIEDMAN, PAES, BROTTO, entre outros, há muita controvérsia a respeito das noções de jogos, brincadeiras, brinquedo, atividade lúdica e esporte. A linhas que separam os jogos, esportes, ginástica, brincadeiras ou danças são muito tênues, servindo mais para uma definição didática.
BROTTO (2001 p 12) coloca que segundo Friedman (1996) não existe uma teoria completa do jogo, nem idéias admitidas universalmente, e apresenta uma síntese dos principais enfoques projetados sobre o Jogo Infantil:
SOCIOLÓGICO:influência do contexto social no qual os diferentes grupos de crianças brincam
EDUCACIONAL:contribuição do jogo para a educação; desenvolvimento e/ou aprendizagem da criança.
PSICOLÓGICO: jogo como meio para compreender melhor o funcionamento da psique, das emoções e da personalidade dos indivíduos.
ANTROPOLÓGICO: A maneira como o jogo reflete, em cada sociedade, os costumes e a história da diferenças culturais
FOLCLÓRICO: Analisando o jogo como expressão da cultura infantil através das diversas gerações, bem como as tradições e costumes através dos tempos nele refletidos.
O jogo é uma atividade típica do homem. O homem inventa jogos e se diverte com eles desde que se tem conhecimento de sua existência.
MONDIN (1980), em "O Homem Quem é Ele?" traz a imagem do: Homo Ludens (ser que joga e se diverte); Homo Sapiens (ser de vontade, liberdade, amor); Homo Loquens (ser de linguagem); Homo Faber (ser de trabalho e técnica) Para ele, a dimensão lúdica traz uma riqueza a mais á realidade humana, na medida em que envolve inteligência e vontade, ação e habilidade, e supera o conhecer, o querer, o agir, porque implica também alegria, satisfação e liberdade.
Sabe-se que impressões arqueológicas e pinturas rupestres demonstram a existência de certos jogos na antiguidade. Fala-se dos jogos entre os gregos, romanos e incas, e traz a década de 1950 como marco histórico: a introdução dos jogos simulados como instrumentos de aprendizagem, nos Estados Unidos.
JOHAN HUIZINGA, foi professor universitário e reitor da Universidade de Leyden na Alemanha, vivendo entre 1872 e 1945. Foi um importante historiados holandês e pioneiro nessa questão do jogo. Sua obra mais conhecida é Homo Ludens, que demonstra como o jogo está presente em tudo o que acontece no mundo, ultrapassando os limites da atividade puramente física ou biológica, tendo sentido próprio e determinado, ele considera o jogo como algo que é anterior á própria civilização e o define: " O jogo é uma atividade ou ocupação voluntária, exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e de espaço, segundo regras livremente consentidas mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentido de tensão e de alegria e de uma consciência de ser diferente da vida quotidiana" DHOME (2003, p 16). A palavra  "jogos" aplica-se mais ás crianças e jovens, exclui qualquer atividade profissional, com interesse e tensão e, por isso, vai além dos jogos competitivos e de regras, podendo contemplar outras atividades de mesma característica como: histórias, dramatizações, canções, danças e outras manifestações artísticas.
Para BARROS (1970, p 34), o jogo constitui uma atividade primária do ser humano. É principalmente na criança que se manifesta de maneira espontânea; alivia a tensão interior e permite a educação do comportamento, o aumento da coeficiência de auto-confiança e suficiência ,a expansão do eu, e, ás vezes, a sublimação das tendências instintivas; faz as crianças agirem contra o medo; favorece o desenvolvimento físico, mental, emocional e social. Para PIAGET, a atividade lúdica surge, inicialmente sob forma de simples exercícios motores. Sua finalidade é o próprio prazer do funcionamento. No período entre dois e seis anos, a tendência lúdica se manifesta sob forma de jogo, a criança tenta reproduzir as atitudes e as relações predominantes no seu meio ambiente; ela será autoritária ou liberal, carinhosa ou agressiva, conforme o tratamento que recebe dos adultos com os quais convive. Dos sete aos doze anos, conforme Piaget, as crianças aprendem o jogo de regras, que predomina durante toda a vida do indivíduo. Esta é uma conduta lúdica, que supõe relações sociais, pois as regras são controladas pelo grupo, sendo que sua violação é considerada uma falta. Para ele, o jogo na criança , inicialmente egocêntrico e espontâneo, via se tornando cada vez mais uma atividade social, na qual as relações interindividuais são fundamentais.
TEIXEIRA e MAZZEI (1967, p. 42), colocaram o jogos como base na educação física da criança, sendo uma atividade formativa bio-psico-espiritual imposta pela própria natureza servindo de motivo para atividades absolutamente indispensáveis na obra educativa. No desenvolvimento, um seguro natural que serve para despertar as capacidades de educando, cria situações através das quais o indivíduo revela o seu caráter e descobre sua alma permitindo intervenções diretas e oportunas.
Para GRAMIGNA, 1993, o jogo é uma atividade espontânea, realizada por mais de uma pessoa, regida por regras que determinam quem o vencerá, ou seja, em sua concepção necessariamente deve haver um vencedor e um vencido. Nas regras do jogo, segundo ela, estão o tempo de duração, o que é permitido e proibido, valores das jogadas e indicadores de como terminar a partida.
CELSO ANTUNES em entrevista cedida a Revista Jogos Cooperativos em Novembro de 2002 define jogo como sendo "uma relação interpessoal definida por regras."
FALCÃO (2003, P1). define jogo como "
toda e qualquer interação entre dois ou mais sujeitos dentro de um conjunto definido de regras."

 

A importância do jogo na aprendizagem.

 

por Mônica Teixeira

 

Em nossa edição anterior navegamos um pouco sobre diversas visões do que é jogo. Dentro de nossa proposta de termos diferentes visões, nesta edição navegaremos um pouco no tema jogo e aprendizagem, na ótica de uma psicopedagoga a profa Maria Célia Rabello Malta Campos, em entrevista no site: www.psicopedagogia.com.br.

 

Qual a importância dos jogos no contexto educacional?

O uso dos jogos no contexto educacional só pode ser situado corretamente a partir da compreensão dos fatores que colaboram para uma aprendizagem ativa. Vemos muitas vezes jogos de regras modificados sendo usados em sala de aula com o intuito de transmitir e fixar conteúdos de uma disciplina, de uma forma mais agradável e atraente para os alunos. No entanto, mais do que o jogo em si, o que vai promover uma boa aprendizagem é o clima de discussão e troca, com o professor permitindo tentativas e respostas divergentes ou alternativas, tolerando os erros, promovendo a sua análise e não simplesmente corrigindo-os ou avaliando o produto final. Isso tudo não é muito fácil de controlar e muito menos de se prever e planejar de antemão, o que pode trazer desconforto e insegurança ao professor. Por isso, ele tende a usar os jogos e outras propostas que potencialmente ativam as iniciativas dos alunos ( como pesquisas ou experiências de conhecimento físico) de modo muito limitado e direcionado e não como recurso de exploração e construção de conhecimento novo.

Piaget afirma que "O jogo é um tipo de atividade particularmente poderosa para o exercício da vida social e da atividade construtiva da criança", você acrescentaria algo a esta afirmação?

Numa visão psicopedagógica que procura integrar os fatores cognitivos e afetivos que atuam nos níveis conscientes e inconscientes da conduta, não podemos deixar de lado a importância do símbolo que age com toda sua força integradora e auto-terapêutica no jogo, atividade simbólica por excelência. Abrir canais para o simbólico do inconsciente não é só promover a brincadeira de "faz de conta" ou o desenho. Qualquer jogo, mesmo os que envolvem regras ou uma atividade corporal, dá espaço para a imaginação, a fantasia e a projeção de conteúdos afetivos, mais ou menos conscientes, além, é claro, de toda a organização lógica que está ali implícita. Por isso, deve-se poder compreender as manifestações simbólicas e procurar adequar as atividades lúdicas às necessidades das crianças.

Qual a importância dos jogos em grupo?

Aprender com o outro é mais rápido e mais efetivo porque é mais prazeroso. Uma das coisas que o jogo assegura é esse espaço de prazer e aprendizagem que o bebê conhece mas que a criança perde quando entra na escola.

O jogo auxilia na construção do conhecimento?

Dependendo de como é conduzido, como procurei mostrar na primeira pergunta, o jogo ativa e desenvolve os esquemas de conhecimento, aqueles que vão poder colaborar na aprendizagem de qualquer novo conhecimento, como observar e identificar, comparar e classificar, conceituar, relacionar e inferir. Também são esquemas de conhecimento os procedimentos utilizados no jogo como o planejamento, a previsão, a antecipação, o método de registro e contagem e outros.

Como o professor deve escolher os jogos para serem usados em sua sala de aula?

Conhecendo primeiramente as condições e as necessidades de cada estágio desses esquemas de conhecimento. O que ocupa uma criança de pré-escola ou um garotão de secundário, cognitivamente falando? Não é questão de oferecer jogos diferentes para cada faixa etária (como vem indicado nas caixas de jogos). Jogos com a mesma estrutura podem servir para várias idades se manejamos a sua complexidade, aumentando ou diminuindo o número de informações. Nos jogos de Senha, por exemplo, podemos variar de 3, 4 ou mais, os elementos a serem descobertos, o que resulta numa diferença muito grande de complexidade da tarefa. Se trabalhamos com dois atributos, cor e posição, colocamos mais dificuldade para coordenar as partes no todo, mas se combinamos de saída as cores, a criança só vai se preocupar em achar a seqüência das posições da Senha. Outro aspecto é o nível de abstração em que a criança vai operar: o mesmo jogo pode ser apresentado por figuras ou apenas verbalmente, caso esse em que o poder de abstrair e de conceituar a partir de proposições precisa ser bem maior.

O jogo sempre foi visto como divertimento, distração, passa-tempo, como é visto no seu trabalho?

Assim mesmo. Se o jogo vira obrigação ou é usado com finalidade de instrução apenas, perde seu caráter de espontaneidade e deixa de ser jogo porque se esvazia no seu potencial de exploração e invenção. Brincar é fundamental. Muitos adultos não sabem brincar, perderam essa capacidade de se descontrair, de se arriscar ou nunca a tiveram e aí fica difícil usar o jogo como recurso tal como eu o entendo

Maria Célia Rabello Malta Campos - Pedagoga com especialização em Psicopedagogia, doutoranda e mestre em Psicologia Escolar pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Docente na pós-graduação latu-sensu em Psicopedagogia da Universidade Mackenzie (S.P.), da Universidade Católica de Pernambuco (convênio UNICAP - CEPAI), da Faculdade Pio Décimo (Aracaju). Supervisora de estágio clínico e institucional em cursos de Psicopedagogia e para profissionais (educadores, psicopedagogos, psicólogos e fonoaudiólogos). É membro do Conselho Nacional da Associação Brasileira de Psicopedagogia, da qual foi presidente no biênio 93-94. Tem diversos artigos publicados, enfocando a avaliação dos problemas de aprendizagem e os fundamentos teórico-práticos da intervenção psicopedagógica, numa abordagem piagetiana e psicanalítica.

 

 

 

 

 

Princípios Básico da
Consciência Grupal

por Mônica Teixeira

Primeiro Princípio:

Os membros do grupo devem aprender o valor do respeito e praticá-lo uns com os outros

Segundo Princípio:

Os membros do grupo devem promover um objetivo comum

Terceiro Princípio:

Os membros do grupo devem trabalhar em harmonia uns com os outros, elevando o objetivo grupal e os objetivos individuais dos membros que não contradizem o objetivo grupal

Quarto Princípio:

Os membros do grupo devem proteger o grupo e seus companheiros de ataques e perigos

Quinto Princípio:

Os membros do grupo devem encorajar e evocar forças para desenvolver grandes potenciais em cada um

Sexto Princípio:

Os membros do grupo devem aprender a ser tolerantes e complacentes com os outros membros do grupo, dando-lhes a oportunidade de se encaixar dentro do trabalho grupal

Sétimo Princípio:

Os membros do grupo devem cultivar uma profunda sensibilidade à liderança do grupo, pela luz do objetivo grupal

Oitavo Princípio:

Membros grupais devem fomentar a alegria dos outros no grupo

Retirado do livro “A Psicologia da COOPERAÇÂO e Consciência Grupal” de Torkom Saraydarian – Ed. Aquariana  

 

O que faz a  Cooperação?

por Mônica Teixeira  

 

Conversando com algumas pessoas durantes esses dias, percebi que existem muitas dúvidas com relação a Cooperação, e que para elas não estava claro o valor da Cooperação no dia a dia.
Por isso,penso que é necessário falarmos um pouco sobre o que faz ou o que pode fazer a Cooperação. Para isso vou pedir ajuda a Saraydarian. Seguindo nosso propósito de trazer diversas visões sobre a Cooperação, os Jogos Cooperativos, e os diversos temas que nos envolvem, seguimos nesta edição trazendo a visão de Torkom Saraydarian sobre o tema  Cooperação.